A aposentadoria da doceira que era poetiza

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Cora Coralina é o pseudônimo de Anna Lins dos Guima­rães Peixoto Bretas (1889/1985), poetiza cuja ternura o Brasil a conheceu, somente quandosua idade colocava seu corpo na ante-véspera (1976) de sua travessia. Seu espirito indomável e sempre jovem, no entanto, traduzia à sua sensibilidade o que seus poemas de rebeldia e os da intimidade divulgam.


Em recente reunião da Academia Ribeirãopretana de Letras, o prof. Luiz Fernando Valladares Borges palestrou sobre “Aspectos da escrita de Cora Coralina”, aquela mulher­de estatura miúda, que viveu a maior parte de seu tempo na cidade histórica de Goiás velho, onde nasceu. Lá a fama era da “melhor doceira da cidade”.

O testemunho de um episódio sobre ela começa aqui, em razão da viagem que o advogado Wanderley de Sousa Silveira e sua mulher Regina CéliaPagliuchi da Silveira fizeram antes ao estado de Goiás, e especialmente para Goiás velho, naquela forte impulsão de interesse e curiosidade turística e histórica, que os levaram portantas viagens realizadas pelo Brasil afora.
Chegaram a Goiás Velho. Souberam de uma doceira que fazia doces saborosos, para viver e sobreviver. Era Cora Coralina.

A visita iniciou-se de manhã, mas só terminou à tardinha, pois, a sedução daquela figura suave não era uma simples doceira. Era a história viva de Goiás.

Ela contou uma história fantástica aos visitantes. Era a de seres pequenos e verdes encontrados em seu quintal, provin­dos, quem sabe, de outro planeta, e que os militares tinham levado para Brasília. Tudo em segredo.

De volta, em São Paulo, o advogado Wanderlei Silveira, fortemente impressionado pelo curto convívio com aquela mulher de espirito histórico, criativo e poético, escreve ao Presidente da Assembleia Legislativa e ao Governador daquele Estado, dizendo que era uma vergonha que “a his­tória viva de Goiás fosse obrigada a fazer doces para viver e quiçá sobreviver”.

A consequência dessa indignação propositiva do advoga­do Wanderley Silveira surtiu o efeito benfazejo: concederam-lhe a justa aposentadoria à doceira.

Em 1972, em razão dessa conquista o casal Wanderley e Regina convidou mais dois casais para irem, os seis, à Goiás velho, uns para visitar e conhecer, eles para revistar e comemorar. O outro casal era do artista Leopoldo Lima e sua mulher.

Cora Coralina não estava em Goiás velho, estava em Goiânia, na casa da filha, recuperando-se da fratura que uma queda lhe causara.

Nesse dia, 28 de julho de 1972, ela ofereceu à Catarina (à Katia diz ela) Chibebe Sabino um poema intitulado “Menor abandonado – Versos amargos para eles”, com a recomenda­ção “Faça dele o seu poema”.

Saindo da casa, fomos a uma lanchonete que vendia pro­dutos só derivados do milho. Na parede estava transcrito a imortal Oração do Milho de Cora.

Como não se sabia da gênese da concessão da aposentado­ria à Cora, esse registro tornou-se um imperativo categórico.

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