Já é bem conhecido o guru brasileiro ultraconservador que influencia os passos do governo Bolsonaro, o chamado de filósofo Osvaldo de Carvalho. Vive nos Estados Unidos há vários anos e chegou até a indicar ministros para um presidente que nem sequer tinha nomes para preencher ministérios como o da Educação e o das Relações Exteriores. O que poucos conhecem é que este fenômeno chamado por muitos de nacional-populista é bem mais amplo do que se percebe à primeira vista e possui também um guru internacional, Steve Bannon, assessor político e que serviu como estrategista-che­fe da Casa Branca no governo Donald Trump em 2017. Antes de assumir tal posição na Casa Branca, Bannon foi diretor executivo da campanha presidencial de Trump em 2016.

Em entrevista recente ao El País, Bannon afirmou que também ajudou Bolsonaro a se eleger. Ele disse que “Bolsonaro e Matteo Salvini, vice-primeiro ministro da Itália e líder do partido italiano anti-imigração Liga Norte, estão muito próximos. Ambos falam de lei e ordem. São pessoas dinâmicas. Mais do que Trump, ele e Salvini de­fendem a ideia de um Ocidente judaico-cristão. E é algo que também está próximo do Vox, partido da extrema-direita espanhol: família tradicional, guerra contra o marxismo cultural”. Lembremos que esse movimento é populista, nacionalista e tradicionalista. E Bolsonaro e Salvini são, para Bannon, seus melhores representantes.” O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, foi recebido por Matteo Salvini em Roma na quarta passada.

Um dos alvos prediletos deste guru internacional é o próprio Papa Francisco. O mentor da eleição de Trump e ícone do neopopulismo se uniu à direita italiana e à ala conservadora do Vaticano contra o pon­tífice, escreve Mark Towsend em artigo publicado pelo The Observer – semanário publicado sempre aos domingos no Reino Unido, perten­cente ao mesmo grupo de mídia do The Guardian – e reproduzido por Carta Capital. Em abril de 2016, antes, portanto, da eleição de Trump, Bannon se reuniu com Matteo Salvini e lhe sugeriu que começasse a atacar abertamente Francisco, que fez dos refugiados uma pedra an­gular de seu papado. “Bannon disse pessoalmente a Salvini que o papa atual é uma espécie de inimigo. Ele sugeriu atacá-lo frontalmente”.

Depois daquela reunião entre Salvini e Bannon, o líder da Liga foi fotografado com uma camiseta na mão que trazia os seguintes dizeres: “Bento é o meu papa”. O slogan se refere à versão de grupos católicos conservadores que afirmam que o papado de Francisco é ilegítimo e que seu antecessor ultraconservador, Bento XVI é, de fato, o verdadeiro pontífice. Uma fonte da Liga Norte afirmou ainda que Salvini teria ata­cado o papa de forma mais contundente, mas foi contido pelo próprio partido, principalmente por Giancarlo Giorgetti, vice-secretário-geral do partido, que é próximo de figuras graduadas do Vaticano. O que fica claro aqui é que grupos e partidos defendem para todo o mundo uma agenda bem próxima das ideias e princípios do fascismo.

Bannon tem feito firme oposição ao papa por meio de seu Insti­tuto “Dignitatis Humanae”, baseado em um mosteiro do século XIII numa montanha próxima de Roma. Em janeiro de 2017, Bannon tornou-se um patrono do instituto, cujo presidente honorário é o cardeal norte-americano ultraconservador Raymond Burke, que acredita que redes organizadas de homossexuais são responsáveis por difundir uma “agenda gay” no Vaticano. O presidente do instituto é o ex-deputado italiano Luca Volonté, que enfrenta neste momento um julgamento por corrupção ligada a propinas do Azerbaijão. Por aí se vê que Bolsonaro não está sozinho e se junta a esta articulação de extrema-direita internacional que tem entre seus inimigos o próprio Papa Francisco. Kyrie Eleison.

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