Jornal Tribuna Ribeirão

A Bolívia e sua literatura (1): Adela Zamudio

Adela Zamudio (1854-1928) foi uma escritora boliviana nascida na cidade de Cochabamba. Católica, viveu numa época em que a educação superior não era oferecida às mulheres de seu país. A despeito disso, interessou-se pela leitura e escrita desde a infância, autoinstruindo-se e publicando, aos 15 anos, poemas sob o pseudônimo Soledad. Porém, somente aos 25 anos, Zamudio teve seus escritos publicados, ocasião, esta, em que pôde, finalmente, desenvolver suas ideias pro­gressistas, a saber: a supressão do ensino religioso e a crítica contrária à discri­minação sofrida pelas mulheres. O conservadorismo da sociedade boliviana, de então, buscou, por sua vez, distorcer suas veementes recriminações, atribuindo-as a prováveis decepções amorosas que, porventura, ela tivesse sofrido, o que a fez desacreditar, ainda mais, das instituições de seu país e abraçar uma solidão longa e dolorosa. Seu primeiro livro, “Ensayos poéticos”, publicado, em 1887, em Buenos Aires, foi acrescido a uma compilação de suas poesias, intitulada “Explosões”, em 1903, livro, este, seguido do romance “Íntimas”, de 1913.

Em “Explosões”, poemas românticos, dentre eles o famoso ‘Quo Vadis’, com o qual Zamudio enfrentou a Igreja Católica, convivem com outros, voltados ao com­bate da precariedade em que viviam as mulheres bolivianas, destituídas dos direitos que cabiam aos homens. Neste poema, a autora, acreditando que o catolicismo não era a única moral que deveria ser imposta aos estudantes, afirma que a Igreja Católica vivia longe dos ensina­mentos que transmitia: “A Roma em que seus mártires sabiam / Em horrível tortura perecer / Hoje é o que os cesarianos querem / Empório de elegância e prazer”. Por sua vez, outro de seus famosos poemas é ‘Born Man’, onde, irônica em relação à infidelidade masculina ou ao direito de voto, afirma “Quanto trabalho ela gasta / Para corrigir a falta de jeito / De seu marido, e em casa, / (Deixe-me ficar surpreso) / Tão inepto quanto tolo, / Ele ainda é a cabeça, Porque ele é um homem!”

Por sua vez, “Íntimas” é um romance epistolar ambientado no início do século 20 na Bolívia. Dividido em duas partes, na primeira traz as cartas que o personagem Juan escreve ao personagem Armando, enquanto, na segunda parte, traz as cartas que a personagem Antonia envia à personagem Gracia. Adotando o artifício de o leitor só lê as cartas enviadas, mas nunca as recebidas, o mesmo não tem acesso às respostas que Armando escreve a Juan, nem às que Gracia escreve a Antonia. Na primeira parte, contando ao amigo e sócio Armando o que lhe aconteceu durante sua estada no departamento de Cochabamba, Juan pontua seu relacionamento com Gracia, irmã de sua cunhada Casta, enquanto esteve hospedado na casa de seu irmão Modesto, bem como, comenta os acontecimentos que lhe ocorreram na cidade e como conheceu sua futura esposa, Blanca Rocha. Na segunda parte, Antonia conta a Gracia a triste história de Evangelina Paz, jovem que, por conta de falsos boatos, foi impedida de casar-se com o homem que amava, terminando por abraçar a solidão.

Duras críticas sobre a obra foram publicadas na ocasião. Uma delas, reco­mendando que Zamudio se dedicasse à escrita de poemas por ser um romance trabalho complexo e feito melhor por homens, o que levou a escritora a recolher, do público, as poucas edições que estavam à venda. Entretanto, anos depois, esse mesmo romance, republicado em melhor edição, foi incluído na série 15 romances fundamentais da Bolívia, publicada pelo Ministério da Cultura e Turismo, indicada por um grupo composto por acadêmicos, escritores e diretores de revistas e suplementos literários. A que se deve tal mudança de perspectiva? Na época de sua pu­blicação, o realismo era a modalidade que dominava na literatura boliviana, focando a representação tipificada de grupos sociais como, por exemplo, os índios, os latifundiários, os burgueses e os mineiros. Tal representação, apresentada por um narrador racional e mas­culino, cujo objetivo era ficcionalizar os problemas do imaginário nacional, era posta de lado por Zamudio, que, conferindo maior importância à psicologia de seus personagens, realizou um romance epistolar que fugia de tais regras.

Com várias edições críticas posteriores à críticas iniciais, “Íntimas” é considerado, desde então, o primeiro romance feminista da Bolívia. No final do século 19, após o Partido Liberal assumir o governo boliviano, Zamudio começou a trabalhar como professora na mesma escola em que fora educada. Posteriormente, já diretora da Escola Fiscal de Señoritas, em 1905, fundou, em 1911, uma academia de pintura em Cochabamba e, em 1916, o Liceo de Seño­ritas, que leva seu nome. Falecendo em 1928, aos 74 anos, traz, em seu túmulo, o seguinte poema, “Volto a habitar em uma estrela ignorada / livre e da tortura da vida, / Lá espero por você; até que eu siga minha marca / chore-me ausente, mas não perdida.” Em 1980, 52 anos após a morte de Adela Zamudio, o gover­no da presidente Lidia Gueiler Tejada instituiu, em 11 de outubro, o Women’s Day (Dia da Mulher) na Bolívia, buscando honrar o nascimento da poeta. Por adição. Após sua morte, várias obras de sua autoria foram publicadas.

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