Jornal Tribuna Ribeirão

A Bolívia e sua Literatura (8): Oscar Cerruto

Oscar Cerruto (1912-1981), escritor, jornalista e diplomata boliviano, nasceu e cresceu em um ambiente familiar conservador. Sua família, de origem italia­na e inglesa, trouxe-lhe a habilidade prática do pai, Andrés Cerruto Durand, boliviano, sócio da fábrica de calçados Zamora, e a habilidade musical da mãe, Lelia Maggie Collier, artista e pianista nascida na Inglaterra. Assim influenciado, não tardou para que, aos 8 anos, Cerruto escrevesse seu primeiro poema, no qual contava a tristeza de ter sido seu cachorro atropelado por um carro. Entretanto, ao mostrar ao pai, homem prático, o primeiro fruto de sua sensibilidade, este não aprovou a prática literá­ria, tratando de incursionar o filho por caminhos de negócios, mais rentáveis que os da literatura. Menino tímido e sempre cabisbaixo, Cerruto, entretanto, tornou-se um leitor ávido. Indo morar com a tia, com esta conheceu a Literatura Clássica, tanto espanhola quanto inglesa. Logo, Charles Dickens, Oscar Wilde, Lord Byron, Miguel de Cervantes e Gustavo Adolfo Bécquer, entre outros, passaram a povoar a cultura e o imaginário do autor.

Em 1926, aos 15 anos, Cerruto, já trabalhando, começou a publicar artigos contra o governo e a Igreja Católica. E tal impacto tiveram suas observações que não tardou para que o governo prendesse os editores responsáveis por tais publicações. Ingressando na política, foi influenciado pelo marxismo, bem como, preso, acusado de conspirar contra a segurança do Estado em 1928. Com o passar dos anos, continuou a publicar poemas, contos e artigos sobre literatura nos jornais locais, ingressando, em 1931, na Diplomacia Bolivia­na. Diplomata, e continuando a escrever, foi designado para o Chile, onde, vencendo um prêmio literário, ingressou no meio intelectual local, estabele­cendo amizade com Vicente Huidobro, influente poeta de vanguarda local, e Pablo Neruda, poeta, diplomata e político chileno, ganhador do Prémio Nobel da Literatura em 1971.

Em 1935, Cerruto escreveu “Aluvión de fuego”, considerado o romance de guerra mais importante da Bolívia. Entre 1942 a 1946, trabalhando na embaixada boliviana da Argentina, mudou radi­calmente seu pensamento político e literário, com contos voltados ao cotidiano da classe alta boliviana. Em 1946, retornando à Bolivia, casou-se e passou a dirigir o jornal El Diario de La Paz. Época em que sua literatura voltou-se aos contos e às poesias. Surge, então, uma nova visão da realidade em sua obra, agora intimamente ligada à compreensão da linguagem. Em sua poesia, o autor não titubeia em afirmar que a linguagem não é uma simples ferramenta de representação, mas, sim, uma ferramenta de investigação da realidade. Talvez daí sua obsessão pelo constante aperfeiçoamento da mesma.

Suas obras mais importantes são Cifra de las Rosas (1957), Patria de Sal Cautiva (1958) e Estrella Segregada (1974). Com a publicação de Estrella Segre­gada, Cerruto tornou-se um escritor reconhecido nacional e internacionalmen­te. O título faz referência à montanha andina que guarda a cidade de La Paz, a qual, para o autor, representa a perda de importância social e comunitária da paisagem da cidade. De acordo com estudiosos, Cerruto nela descreve a degra­dação dos valores e crenças morais causados pelo domínio do poder político corrupto na vida local.

Seu último poema é um diálogo com a morte, e, a partir disso, o poeta sentiu que nada mais tinha a dizer. Seis anos mais tarde, adoecendo, foi submetido a uma cirurgia, vindo a falecer em 1981. Nas palavras da crítica, muitas de suas opi­niões sobre a Bolívia ainda são a melhor descrição de uma sociedade que luta com suas próprias deficiências. Ao lado disso, foi o poeta boliviano que mais bem expressou a solidão de ser um poeta e uma consciência iluminada em tempos de de­gradação ética. Um de seus poemas? “Pouco antes nada, logo depois fumaça”: Ah mais que sangue somos ossos, cal que nos rói lágrima a lágrima. Ossos retorcidos pelo fogo do orgulho. Estilhaçando-se de rancor, gelados. Caules vorazes — isso somos. E assim é nossa férula cega e cai em torno como gota de chumbo. Também caímos, mais abaixo caem nossos pronomes pedaço a pedaço. Isso somos, rescaldos de caducidade, deuses flamejantes, afundados até o pesco­ço, e ainda plenos de febre e pólen.

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