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7 de julho de 2022 | 13:43
Jornal Tribuna Ribeirão

A crueldade em campo de concentração nazista

A compaixão e a coragem de duas monjas foram a inspiração para Ariel Ramirez compor “Misa Criolla”

A “Misa Criolla” (Missa Criola, em português) é um dos maiores sucessos fonográficos de todos os tempos. Para se ter uma idéia basta dizer que essa única produção havia vendido, 60 milhões de cópias, 10 milhões apenas na Argentina.

Quando compôs sua “Misa Criolla” o argentino Ariel Ramirez já era muito conhecido, principalmente pela composição, em 1945, de “La Tristecita”, marco importante da música do país vizinho. Outros sucessos mantiveram essa fama e entre eles “Alfonsina y El mar” teve destaque especial. Em 1941, em visita a Tucumán Ramirez foi aconselhado por Atahualpa Hyupanqui, outro grande nome argentino inesquecível da música latino-americana, resolveu fazer um giro pelas diferentes regiões da Argentina, conhecendo suas músicas.

Em seguida embarcou para a Europa para aperfeiçoar seus conheci­mentos musicais e fazer apresentações, mostrando o que havia visto no in­terior de seu país. Ficou na Europa de 1950 a 1954 e, ao final, hospedou-se em um grande convento na cidade de Wurzburg, na Alemanha. Ali todos falavam apenas a língua alemã, e ele falava apenas o castelhano, o francês e o inglês. Só não ficou totalmente isolado porque conheceu duas religiosas (monjas), irmãs, que cuidavam da cozinha do convento e que falavam o português, língua da qual Ramirez tinha certo conhecimento.

Tornou-se amigo das mesmas. Conversava muito com elas, enquanto almoçava e da janela observava uma bela paisagem centrada por um grande casarão. Disse para as monjas: “que linda paisagem, não acham?” e elas respon­deram um sonoro não. Ele quis saber por que e elas lhe contaram um segredo, guardado por muitos anos. O casarão era o centro de um campo de concentra­ção dos nazistas. Cercado por telas, guardava prisioneiros, nas piores condições, judeus e outros prisioneiros considerados pelos nazistas como “raças inferiores”.

As monjas passavam defronte a concentração e viam centenas de pessoas esquálidas, em péssimas condições nutricionais. Falar com elas era proibido pe­las autoridades e poderia custar a vida por enforcamento. Indignadas buscavam pensar em alguma maneira de ajudar essas pessoas, mesmo correndo risco de vida. Resolveram recolher em bolsas os alimentos que não haviam sido usados pelos moradores do convento e, à noite, com as próprias mãos, cavavam bura­cos, para o lado de dentro da tela, e colocavam as bolsas, cobrindo com terra, na esperança de que os prisioneiros descobrissem e usassem os alimentos.

Deu certo e o processo se repetiu por um ano e meio, quando a guerra terminou e os prisioneiros (os que não haviam sido mortos por doenças ou execuções) libertados. Muitos anos depois as irmãs Elisabeth e Regina Grupner revelaram esse segredo para o compositor argentino que se tornara seu amigo e confidente. De volta à Argentina Ramirez tinha dois objetivos a fazer: como perenizar o heroico procedimento das irmãs e como manifes­tar sua indignação pela violência e falta de equidade entre os povos.

Soube que no começo dos anos 60 o religioso franciscano belga Guido Hafen, que vivia na República do Congo, havia produzido uma composição litúrgica musicada a que denominou “Missa Luba”, cantada em idiomas africanos. Pensou em partir dessa experiência, mas tinha um problema: como produzir sua missa se obrigatoriamente, naquela época, a Igreja Ca­tólica exigia que as missas fossem rezadas em latim e de costas para os fiéis. Aí novamente os fatos vieram a seu favor. O Vaticano modificou as normas: as missas poderiam ser rezadas no idioma local e de frente para os fiéis.

Um religioso, amigo de Ramirez, foi nomeado para aplicar as novas normas na Argentina. Estava aberto o caminho para a “Misa Criolla”, que não é missa no sentido litúrgico, mas um misto religioso e folclórico, sendo cantada por músicos e não por padres. A composição tem cinco partes, cada uma cantada em um ritmo provincial argentino. É de uma beleza divina. Agora, caro leitor, se você já não viu e ouviu, busque encontrar uma interpretação da “Misa Criolla”. É fácil. Vários grupos e cantores famosos gravaram esse enorme sucesso: Mercedes Sosa, Los Fronterizos, Zamba Quipildor, Plácido Domingo, José Carrera e muitos outros.

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