A ditadura na terra do quem sabe ou do talvez

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A leitura da história não é assim tão generalizada a ponto de se ter uma consciência, alerta, densa e forte, organizada, para uma defesa da democracia, por exemplo. O grunhindo ignorante, em favor da dita­dura, por pequena parcela de jovens, e mesmo adultos, não se esque­cendo dos esquecidos pela má-fé, corre por conta dessa indisposição ao conhecimento da realidade. Melhor, ignorância. Tal o efeito desse estado que quando se diz que tortura faz bem e o torturador é um herói, nada acontece, para tais pessoas, nem ânsia de vômito.

Mas, agora se tornou fácil compreender o que foi a ditadura, através da campanha da “Folha de S.Paulo”, de vocação continuada, até as elei­ções de 2022, sob o título “O que foi a ditadura”, iniciada no domingo, dia 20 de junho, e com manchetes que se não despertam o interesse da leitura, ao menos, por si, já dão o mote do alerta sinistro.

1-Ditadura formou geração de militares que hoje povoam governo federal.
2-Dissimulada, ditadura militar criou miragem de separação de Poderes.
3-Regime agigantou as empreiteiras e foi rico em escândalos financeiros.
4-Engrenagem de abusos perseguiu, matou, torturou e saiu impune.
5-Regime impregnou polícia com valores e métodos repressivos.
6-Artes e imprensa sofreram mordaça para não atrapalhar o ufanismo oficial.
7-Foi fácil entrar na ditadura, difícil foi sair.
8-“Milagre” revê PIB recorde e semeou década perdida.
9- O afã de integrar Amazônia levou a desmatamento e morte de índios.

A projeção histórica do malefício da ditadura pode ser visto na lei da segurança nacional, diploma nascido no auge da guerra fria, que trata o opositor político não como um adversário, mas como inimigo. Essa dicotomia invadiu sub-repticiamente o discurso político posterior do país, às vezes, com roupagens ou etiquetas ideológicas diferentes, mas ri­gidamente bifronte, discriminador, implícita ou explicitamente, violento.

Com o Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968, no governo de Artur Costa e Silva, sobreveio o fechamento do Congresso Nacional, a cassação de mandatos parlamentares, aposentadoria compulsória de três ministros do Supremo Tribunal Federal (Hermes Lima, Victor Nunes Leal e Evandro Lis e Silva), e dois outros saíram porque discordaram da violência verde-oliva (Gonçalves de Oliveira e Antonio Carlos Lafayete de Andrada), sobreveio a cassação de professores, estudantes, prisão de críticos do regime, sobreveio a suspensão dos predicados da Magistratura e da garantia consti­tucional do habeas corpus, a intervenção em Estados e Municípios.

O AI nº 5 gerou o êxodo dos cérebros nacionais, que foram lecio­nar e/o pesquisar em outros países, indo também opositores do Estado policial, no qual as liberdades e garantias individuais e civis ficaram cerceadas, no cenário nacional do medo e do terror, enquanto nos porões desenvolviam-se as práticas da tortura e da humilhação, quando não da morte, que depois diziam ter sido em confronto. A liberdade de imprensa ficou cerceada.

Em 1977, o líder do MDB, Alencar Furtado criticando o AI nº 5, declara “O programa do MDB defende a inviolabilidade dos direitos da pessoa humana para que não haja lares em prantos. Filhos órfãos de pais vivos – quem sabe, mortos, talvez. Órfãos do quem sabe e do talvez”. O General Geisel o cassou.

Quem viveu ou sobreviveu tem o dever de contar, e quem nasceu depois tem a obrigação de conhecer, para que o país não repita seus erros, nem como farsa, e possa debruçar sobre si mesmo, perguntan­do-se – o que queremos ou podemos querer de nós mesmos? Eis o início da consciência.

Apesar disso foi nesse glorioso Brasil que se ouviu a estupidez: a ditadura ajudou a democracia. Essa é a ousadia de todo aquele que saiu protegido pela amplitude da anistia.