A herdabilidade dos comportamentos humanos complexos (3)

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Inteligência é um construto central nos domínios da Psicologia Diferencial e da Genética Com­portamental, o que, por conseguinte, o leva a ser da Neurociência Cognitiva, também. Considerada um dos melhores preditores de relevantes resultados na vida, tais como, educação, ocupação, saúde, doença físico-mental e mortalidade, também é um dos traços comportamentais mais herdáveis. De fato, há, aproximadamente, um século atrás, usando então delineamentos genético-quantitativos emergentes na época, a saber, estudos envolvendo gêmeos idênticos e adotivos, inteligência foi o primeiro traço comportamental estudado. Desde então, tais estudos têm consistentemente mostra­do que influências genéticas sobre as diferenças individuais na inteligência são substanciais, o que, talvez, torne-a alvo dos estudos de Genética Molecular que buscam identificar os genes responsá­veis por sua herdabilidade. A Genética Comportamental, estudo da maneira pela qual a variação genética afeta os fenótipos psicológicos (traços), incluindo habilidades cognitivas, personalidade, doença mental e atitudes sociais, tem, em estudos numerosos, apontado quatro robustas regulari­dades empíricas que iremos sumariar nas próximas linhas.

De acordo com a primeira lei, todos os traços comportamentais humanos são herdáveis, isto é, afetados, em algum grau, pela variação genética. Isto significa que as diferenças entre indivíduos são significativamente herdáveis, sejam eles avaliados quantitativamente como uma dimensão, ou qualitativamente como um diagnóstico. Embora esse achado seja intensamente demonstrado, ele ainda não tem tido ampla aceitação, especialmente nas ciências comportamentais, devido ao fato de ele ressuscitar o debate criação versus ambiente que permeou, por muitas décadas, as áreas da psicologia e psiquiatria, ainda hoje existente em algumas áreas educacionais. É claro que, sem sur­presa, qualquer traço comportamental sofre influência genética e talvez seja mais interessante achar um que não o sofra.

A segunda lei afirma que o efeito de ser criado na mesma família é menor que os efeitos dos genes. De acordo com esta lei, o ambiente compartilhado, isto é, o ambiente que é igual para todas as crianças, explica apenas uma pequena proporção da variabilidade dos traços comportamentais. Assim, a conclusão mais apropriada, talvez, não seja discutir o quanto o ambiente familiar não importa para o desenvolvimento das crianças, mas, ao contrário, qual é o ambiente compartilhado pelos irmãos que não importa. Por que, então, são tão diferentes crianças de uma mesma família? Estudos propondo que isso se deve, potencialmente, aos eventos ambientais não-compartilhados que, ao invés das variáveis ambientais compartilhadas, são uma realidade. Um exemplo? O status socioeconômico, que constitui a base da psicologia evolutiva sociocultural.

Pela terceira lei tem-se que nenhum traço é totalmente herdável. Todos os traços mostram substancial influência ambiental, haja vista que a herdabilidade não é total para aquele traço. A aceitação da importância tanto das influências genéticas quanto ambientais conduz ao interesse da interação entre gene e ambiente, tal como, sua interação (moderação) e correlação (mediação) no desenvolvimento dos traços complexos.

A quarta lei, por sua vez, tem emergido da pesquisa genética molecular que tenta, com dedica­ção, identificar os genes específicos responsáveis pela extensão ou grau de herdabilidade. A herda­bilidade é causada por muitos genes que têm efeitos pequenos, o que significa, em outras palavras, que um dado traço pode ser afetado pelas inúmeras associações de genes de suas variantes, cada qual tendo pequenos efeitos. Não há estudos que demonstrem, até o momento, um gene que tenha grande efeito num traço comportamental complexo qualquer, como inteligência, ou mesmo, habi­lidade para leitura, escrita, etc. É certo que as influências genéticas são substanciais. Porém, nada se sabe sobre a especificidade de um gene em relação a um determinado traço.

Essas quatro leis, portanto, devem ser cuidadosa e intensamente consideradas no cenário edu­cacional. Queremos dizer com isso que educação deve incorporar a genética do comportamento como um domínio a ser profundamente estudado.