A leve impressão de ser feliz

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Memória é algo que se mantém guardada sem chaves. É nela que residem fatos que nos deixam respirar um tempo anulado de distância. É ela que nos faz dançar enquanto se cozinha com The Carpenters, ou lembrar o ano em que se ouviu Rita Lee com o Fruto Proibido, e reconhecer a própria história em livros que foram descobertos durante essa trajetória.Um amontoado de momentos que se tornaram perpétuos e se fazem presentes, apesar da idade.

Gosto de me lembrar criança treinando passos de ballet em frente ao espelho, da mesa redonda na sala de estar (vista recentemente em um filme!) em que passava horas jogando bolinhas em seu contorno abaloado, dos inúmeros filmes vistos na TV à tarde, de séries que empolgavam a imagina­ção como Terra dos Gigantes e Túnel do Tempo. Nada melhor quando sentia o cheiro do pão feito em casa, a manteiga a sumir na quentura dele saído do forno, das várias latas de leite condensado devoradas com Nescau, das noites que havia torradas com espinafre e rodelas de ovo cozido feitas pelo pai.

Por sinal, em lembranças vem a da semana que minha mãe viajou para ver a irmã em Novo Horizonte e ficou com ele a responsabilidade de acordar as filhas para irmos à escola. Esse despertar era feito com mú­sicas que cantava apaixonadamente. Para a loirinha de olhos azuis, era Raio de Sol; para mim, a mais moreninha da família, era Índia. Depois deste encantamento, lá estava ele a fazer o café da manhã. Frutas cortadi­nhas, leite com chocolate e tostex, ou seja, pão de forma com queijo e presunto tostado em uma sanduicheira de alumínio que ia ao fogo.

Fazíamos festa a cada manhã, assim como a cada dia daquela semana levei um destes sanduíches como lanche. O que tinha sido feito às 6h30 era comido no recreio às 10h da manhã já totalmente frio e o pão tornava-se molengo. Mas era impossível revelar isso a ele que fazia com tanto carinho aquela merenda. Passei a semana com minhas amigas rindo daquele lanche desajeitado, mas o que não sabiam era que a cada mordida aumentava ainda mais o amor pelo meu pai.

Teve também o Dia das Crianças em que, hoje vejo, ele se esqueceu do meu presente. Cativante como era, falou que pensou em me comprar um brinquedo, mas que certamente iria me ofender, pois eu já tinha 11 anos de idade. Fui ao encontro das colegas me sentindo quase adulta enquanto elas desfilavam os presentes ganhos no dia. Olhava-as quase com piedade pelos pais não entenderem, como o meu, que elas tinham crescido.

Foi também ele que me abraçou e passou a impressão de ser eu a maior estrela do teatro. Aos 14 anos, participava de uma competição com mais de 20 alunos inscritos em um curso do ator global Jaime Barcellos. A final foi no Teatro Municipal de São Carlos onde morávamos. Minha apresentação era um trecho da peça de Dias Gomes, “O Santo Inquérito”, em que vivia a Bran­ca Dias, moça acusada de bruxaria por ter salvado um padre do afogamento por respiração boca a boca. Depois de todos os concorrentes se apresenta­rem, o corpo de jurados se ausentou para decidir os primeiros lugares.

Nesse ínterim, consegui ir até a plateia para falar com a minha família. Meu pai tinha ido ao banheiro e encontrei minha mãe e irmã felizes, mas ten­tando me preparar para uma possível perda. Afinal eram vários e talentosos os candidatos. Nisso, vejo meu pai descendo a rampa e quando me viu abriu-se em sorriso e braços. Apertada naquele peito, ouvi que se eu não ganhasse aqueles jurados não sabiam de nada e que, claro, eu tinha sido perfeita. Voltei ao palco junto com os outros para saber o resultado.

Diante daquela plateia lotada, eu só o via, e seu sorriso me levava a um mundo que já não importava a decisão. Supreendentemente, ouço meu nome como primeiro lugar e, ainda sem tirar os olhos dele, invade a minha alma minha primeira sensação de vitória.

Pois é, memórias de tempos, de fatos, de músicas, de livros e, princi­palmente, de pessoas amadas que me trouxeram até o hoje, que provam que há uma leve sensação de felicidade.

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