ALLAN S. RIBEIRO

A vereadora Duda Hidalgo tem 21 anos, nasceu em Ribeirão Preto e é estudante de Direito. Nas eleições de Ribeirão Preto, realizadas no ano passado, sur­preendeu pelo total de votos que recebeu: 3.481. Com a façanha, além de mudar a cara do Partido dos Trabalhadores (PT) no Legis­lativo da cidade, tornou-se a sexta mais votada em relação aos vinte e dois parlamentares eleitos.

Em entrevista ao Tribuna a parlamentar falou que é femi­nista, ativista pelos direitos hu­manos e militante da luta por moradia digna para os menos fa­vorecidos. “Nosso lema na cam­panha foi ‘Para mudar Ribeirão’. E nossa atuação é pautada nisso, na construção de uma cidade mais humana e solidária para toda a população” afirma.

 

Tribuna Ribeirão – Você está em seu primeiro mandato parlamentar. Como avalia sua eleição no pleito do ano passado?
Duda Hidalgo – Tivemos um óti­mo resultado nas eleições, um resul­tado que surpreendeu muita gente, inclusive, a mim mesma. Acho que essa surpresa se deu por eu ter um perfil muito diferente da maior parte dos políticos. Desde criança observa­mos essa falta de representatividade nos espaços simbólicos e concretos na vida pública e isso nos faz acreditar que é impossível mudar essa realida­de. Espero que a minha experiência, assim como tantas outras que vimos nessas eleições, possa estimular outras pessoas a fazerem parte da política.

Tribuna Ribeirão – Grande parte do eleitorado se surpreendeu com o total de votos que você teve. Qual o perfil de seu eleitorado?
Duda Hidalgo – Meu eleitorado é bastante pulverizado, conseguimos obter boas votações em todos os can­tos da cidade. E, tendo como base meus apoiadores mais próximos, a maior parte dessas pessoas é compos­ta por mulheres e jovens.

Tribuna Ribeirão – A pandemia do coronavírus mudou o jeito de se fazer campanha em função do dis­tanciamento social. Como você fez para chegar ao eleitor?
Duda Hidalgo – As redes sociais tiveram um papel fundamental na mobilização de pessoas em torno da candidatura. O distanciamento social trouxe dificuldades na construção de um trabalho político e social de mas­sas, responsável em grande parte por oxigenar e otimizar o diálogo com a base. Em vista disso, tivemos que adotar outras estratégias diferentes para garantir a participação popular na construção de um projeto, como a criação de grupos de trabalho, ple­nárias, dentre outros. E foi a partir das redes que conseguimos convidar as pessoas para fazerem parte desses espaços e divulgar as propostas e pro­jetos que surgiram dos mesmos.

Tribuna Ribeirão – Seu partido aumentou a bancada na atual legis­latura de um para dois vereadores, e elegeu dois nomes novos. Em sua avaliação o PT em Ribeirão Preto está se renovando?
Duda Hidalgo – Não só renova­ção de nomes, mas uma renovação de perfil. O Partido dos Trabalhadores, nas eleições de 2020, investiu em can­didaturas com perfis que fogem do ‘político tradicional’. Além de ter sido direcionada uma parte do fundo par­tidário para mulheres, houve também a destinação de parte do fundo para candidaturas jovens, de negros e ne­gras e LGBTQIA+. Essa atitude com­bateu o sub-financiamento das mino­rias e garantiu que essas candidaturas se destacassem em todo o Brasil. As minorias devem ser as protagonistas das mudanças que precisamos. Che­gou a nossa vez de ocupar os espaços de poder dentro da política trazendo a verdadeira representatividade.

Tribuna Ribeirão – O fato de várias lideranças do PT terem sido acusadas e condenadas por corrup­ção dificulta o trabalho de quem é eleito pelo partido?
Duda Hidalgo – Me filiei ao PT em um momento de golpe e de luta e resistência pelos direitos do povo bra­sileiro. Um momento diferente do que vivemos hoje em que a decisão a res­peito das condenações do presidente Lula enfraqueceu a narrativa do anti­petismo. O antipetismo muitas vezes se alimenta da pauta anticorrupção, mas o PT é realmente o partido mais corrupto? Não, não é. Nem mesmo ao se analisar o número de políticos cas­sados por partido o PT aparece dentre os primeiros colocados. O combate à corrupção é importante, ainda mais tendo em vista os retrocessos do atual governo nessa área, mas ele não deve se confundir com a criminalização do partido X ou Y. E é sempre importante lembrar que a maioria dos mecanismos de combate à corrupção que temos hoje no país foi criada nos governos dos ex-presidentes Lula e Dilma.

 

Tribuna Ribeirão – A pandemia tem atrapalhado seu trabalho parla­mentar?
Duda Hidalgo – A pandemia pre­judica o contato direto com o muní­cipe, seja para a coleta de demandas ou participação popular. Consegui adaptar alguns projetos para o am­biente virtual, como por exemplo, os laboratórios populares. Fundamos alguns laboratórios populares, que são grupos para debatermos as pro­blemáticas e possíveis soluções para nossa cidade, os quais atualmente têm acontecido virtualmente.
Contudo, alguns projetos, infe­lizmente encontram-se parados por causa da pandemia, como um de meus projetos que se chama ‘Gabine­te na Rua’, que consiste em visitar de forma rotativa os bairros montando uma estrutura de atendimento, com o objetivo de aproximar a política e o mandato das pessoas.
Mas devo salientar que a política é fruto dos acontecimentos fáticos do nosso dia a dia. Por isso que a maior parte da minha atuação enquanto ve­readora tem sido ajudar a nossa cida­de a enfrentar essa pandemia. Presido a Comissão Especial de Estudos que acompanha e fiscaliza a volta às aulas na rede municipal, apresentei o pro­jeto que permite a compra da vacina, além de uma série de requerimentos e indicações sobre o tema. Todos preci­sam se adaptar a essa nova realidade e o Legislativo não é exceção.

Tribuna Ribeirão – Quais serão as suas prioridades neste mandato?
Duda Hidalgo – Sou mulher, jo­vem, estudante, negra e LGBT. Sem­pre levantei e levantarei a bandeira dos direitos humanos e de todas as minorias. E essa defesa passa por di­versas áreas, tanto que já apresentei projetos que vão desde campanhas de prevenção ao assédio sexual em trans­portes públicos até a proibição de des­pejos enquanto perdurar a pandemia. Recentemente tivemos uma grande conquista para a cidade: a Prefeitu­ra acatou nossa sugestão e incluiu a criação do Departamento de Direitos Humanos na reforma administrativa. Nosso lema na campanha foi ‘Para Mudar Ribeirão’. E nossa atuação é pautada nisso, na construção de uma cidade mais humana e solidária para toda a população.

Tribuna Ribeirão – O Legislativo era o que a senhora esperava?
Duda Hidalgo – Sim, eu estudo Direito, então não tinha ilusões quan­to ao papel do Legislativo. Entretanto, é mais agradável na teoria do que na prática lidar com a reduzida esfera de atuação do Legislativo. Tem também a questão de que eu sou apenas um dentre 22 votos, sendo fundamental a busca pelo diálogo, mesmo tendo ideologias diferentes, pois temos uma cidade a construir e desenvolver.

Tribuna Ribeirão – Que avalia­ção a senhora faz do presidente Bol­sonaro e do governador João Dória na condução das ações contra o co­ronavírus?
Duda Hidalgo – Temos um presi­dente irresponsável no enfrentamen­to ao coronavírus que incentiva tra­tamentos que comprovadamente não funcionam – e colocam a população em risco – questiona a utilização de máscaras e se nega a liderar um pla­no nacional de combate à pandemia. O Supremo Tribunal Federal liberou que estados e municípios importem e distribuam vacinas em vista do descaso da Presidência da Repúbli­ca e do Ministério da Saúde com sua própria população. Por este motivo, propus uma Lei que autoriza a pre­feitura a comprar vacinas, a qual foi recentemente sancionada. Tivemos que tomar uma postura ativa em nível municipal para garantir a saúde dos nossos munícipes. Dória, por sua vez, também apresenta posturas nega­cionistas e irresponsáveis, como, por exemplo, a volta às aulas da rede pú­blica estadual, indo na contramão do seu discurso de defensor da ciência. No Palácio dos Bandeirantes temos um marqueteiro e no Palácio do Pla­nalto um genocida.