O universo, em seu infinito, aconchega o tempo, o espaço, as galáxias, as estrelas, a escuridão, o sol. Como pai cuida­doso tenta manter em ordem e harmonia todos os filhos que abraça. Dentro dele, uma de suas galáxias abriga a Terra habitada por humanos, plantas, animais. Nesta casa enorme, azul como já foi descrito, continentes se delineiam com seus países, mares, rios, ilhas.

Em cada um deles, vidas nascem e morrem sem que a ciência ainda tenha provado para onde vão estas energias que já foram reais juntamente com as nossas palavras, nossos choros, nossas risadas. Em que lugar deste imenso universo continuam a existir, de forma transformada, de forma que nem se sabe qual é, onde vivem ou revivem, ou não existem mesmo com existência? Existências verdadeiras que perma­necem vivas em nós que sentimos suas faltas.

Hoje acordei pensando, como em muitos outros dias já pensei: por que estou aqui, como me identifico nesta inquie­tude? Ao nos apresentar a alguém que ainda não conhece­mos, parece-nos normal nos definirmos na nossa profissão, idade, família ou posses. Mas como de fato posso me mostrar e dizer quem sou? Jornalista? Filha do Dito Carlos? Mestra em educação? Especialista em mídias digitais? Escritora?

Nesse embolado de tudo que construímos, que ao longo dos anos a cada dia estudamos, trabalhamos, conversamos, sempre pensei que o mais que me definia é ser mãe. Nes­ta imensidão em que nos cabe um lugar para dormir, para cozinhar, que chamamos de lar, nesse pequeno espaço é que descobri a minha razão em estar aqui. Foi na dor do parto, na hora em que tive meu filho ainda melado da placenta nos meus braços, na hora que o peito inchado de leite era alimen­to para ele, que eu soube a conexão que havia entre mim e esse universo pai.

Tudo fez sentido para a exigência de coragem na vida, para o conhecimento adquirido que tanto ainda tinha que crescer, o amor pelo outro que me estenderia seu coração para sempre. Não foi o sentimento de um amor egoísta, pelo contrário, o amor era direcionado a todos os seres vivos e aos chamados inanimados da natureza.

Foi com o meu filho em meus braços ainda bebê e depois de mãos dadas a ele já adulto que a vida fez sentido! Quando meu filho foi levado para outro espaço do universo, a sensa­ção de falta de chão, de solidão, de pequenez diante a tudo que antes parecia me pertencer, me deixou sem saber quem eu era. Como a partir daquele instante eu me apresentaria a alguém? Sou… não sei; sou… aquela que não; sou… era.

Os anos passaram e me encontro ainda sem chão estável, mas começando a me identificar novamente. Afinal, eu sou a mãe do Rodrigo e isso ninguém pode me tirar.

Minha solidariedade, meu coração, minhas orações aos pais dos dez meninos mortos no alojamento do Flamengo, meninos que sonhavam em conquistar o universo e que por descaso de poderosos estão agora nesse lugar que não sei di­zer onde é, junto com meu filho, também amante do futebol. Que vocês joguem muita bola e saibam que nós, neste pedaci­nho que estamos, sempre pensaremos em vocês.

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