A porta da verdade

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É bem verdade que cada um carrega sua verdade. Quan­to a fatos, no entanto, há uma única verdade, não obstante as muitas versões. O compromisso de informar a verdade a respeito dos fatos é a maior contribuição que podemos dar à sociedade brasileira neste momento. Momento em que está travada uma batalha entre versões sobre qualquer fato tem tenha conotação política.

Para manter-se bem informado é essencial permitir-se ler, ver e ouvir o contraditório. Para manter-se bem informado faz-se necessário saber reconhecer qual é o compromisso e o interesse da fonte de informação acessada. Para manter-se bem informado é primordial ir além dos guetos de informa­ção pelos quais você passeia rotineiramente ou que passeiam sobre você. Treine manter-se bem informado neste momen­to civilizatório em que as mídias invadem sua vida. Pare de engolir anedotas alheias e as suas.

Por meio de falas e textos deparo-me frequentemente com informações de especialistas na área ambiental que possuem como principal compromisso defender setores corporativos do mercado econômico. Não há um esforço ou capacidade de vislumbrar as consequências negativas dessa maneira de informar a sociedade. Com a gestão liberal do Estado ocorre algo semelhante: há aqueles que não consideram importantes os interesses coletivos de suas decisões. Creio que seria me­lhor manterem-se no setor privado, evitando gestões equivo­cadas na esfera pública.

Mas a verdade da qual somos donos também se comunica com a realidade dos fatos. Neste momento da vida pública do Brasil, quando atitudes fascistas são normalizadas ou mesmo apoiadas, é importante que exercitemos a capacidade de observar como é afetada nossa subjetividade. Uma vez atentos e sabedores da necessidade de acolher nossas emoções advindas do contato com posturas violentas e antidemocráticas, temos a oportunidade de agir com inteligência. Não é hora para o fígado.

Duas outras capacidades a serem exercitadas são o silêncio e a coragem. Ambas se nutrem quando buscadas com sinceri­dade interior. A motivação para juntar-se pela vida inteligente e civilizada virá da soma do silêncio e da coragem. Democra­ticamente formar-se-ão opiniões que influenciarão escolhas mais sensatas.

Não é a falência do Estado que nos colocou na rota de uma barbárie. É a incompreensão por parte das elites econômicas & políticas da função do Estado em manter políticas de formação pessoal e profissional para milhões de brasileiros terem a chance de gerar riquezas para si mesmos e para o país. A verdade é cinti­lante: somos uma sociedade que exclui. O que está em falência no Brasil é o compromisso com a realidade e o humanismo. Penso que a gestão fiscal ortodoxa propagada pelos quatro cantos deixa­rá um rastro de miséria ainda maior.

Escrever sobre a verdade não é tarefa fácil e certamente deixo falhas e lacunas neste artigo.
Recorro então à poesia de Drummond para reparar esse provável dano: “A porta da verdade estava aberta, mas só deixava passar meia pessoa de cada vez/ Assim não era possível atingir toda a verdade, porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade. E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. E os meios perfis não coincidiam/ Arrebentaram a por­ta. Derrubaram a porta. Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos. Era dividida em metades diferentes uma da outra/ Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. Nenhuma das duas era totalmente bela. E carecia optar. Cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.” Poema: “A verdade”. Livro: “Corpo”. Autor: Carlos Drummond de Andrade.

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