Jornal Tribuna Ribeirão

A vacina e o homem nu

O jornal Folha de S. Paulo lançou uma coleção de pensadores que construíram o Estado e a Administração de nossos dias. Um dos livros mais notáveis é a obra clássica do suíço Rousseau que tem como título “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desi­gualdade entre os homens”. O autor nasceu em Genebra, em 1712, e faleceu em 1778. Era ligado aos iluministas.

Rousseau inicia sua obra com fundamentos nas sociedades tribais até hoje existentes. Registra que o homem surgiu no mundo regido pela natureza. As primeiras regras por ele obedecidas eram fixadas pela natureza: sentir fome, dormir, atacar inimigos, etc. Não sabia falar; não tinha conhecimento gramatical; nem mesmo vivia em ambiente familiar. Mas o “homem selvagem não era mau porque não sabia o que era ser bom”, assinalou o filósofo.

Passados séculos, o homem natural passou a construir regras de convivência que não as retirou da natureza, mas, sim, do seu acultura­mento. Os nossos antepassados na época de Rousseau já conheciam religiões, normas jurídicas e morais, vivendo, quase todos, em ambiente familiar. Já sabia o que era sujeito e objeto da frase pensada e falada.

Os novos homens construíram uma civilização com alicerce em fortes regras comunitárias e familiares. Colocaram os pés na lua, criaram várias nacionalidades, submetendo-se, tanto quanto deseja­do, à convivência pacífica.

Muito embora o homem civilizado tenha abandonado as regras selvagens, erigiu várias estruturas morais e jurídicas para por fim aos conflitos que tendem a não acabar. O homem natural resolvia seus problemas dando uma paulada no seu adversário. O homem civilizado, muito embora dispare bombas contra seus adversários, no seu ambiente pessoal resolve seus conflitos nos tribunais.

Assim mesmo a civilização convive com um dos mais graves problemas sociais de sua história: a pandemia do vírus “covid”. O Brasil já coleciona mais de 600.000 mortes. Imediatamente a ciência médica revelou que o principal obstáculo para o covid está na vacinação e que iniciada a sua aplicação, o número de afetados foi sensivelmente reduzido.

A ciência médica revela a necessidade da intervenção estatal em busca da eliminação do mal. Assim se agiu contra a paralisia infantil, o sarampo, a gripe asiática, etc. A vacinação converteu-se no melhor instrumento contra as novas e velhas doenças.

Em posição negacionista o Presidente Jair Bolsonaro nega existir meios jurídicos para impor a vacinação. A resposta encontrada pelos iluministas do século XVIII enfrenta a posição do nosso Presi­dente da República.

Veja-se que o homem e a mulher civilizados da nossa convivên­cia apresentam-se em público sempre vestidos. Podem andar pela cidade nus? Claro que não. O Estado pode punir o homem e a mu­lher que resolvam andar pelas ruas sem roupa? A resposta é “sim”. Trata-se de uma regra construída pelo homem civilizado.

Seguramente, na mesma linha, as autoridades têm o poder de sobra para impor a vacinação obrigatória, resguardando vidas e mais vidas. Condenar os homens à morte, tendo meios de conter o mal, significa condenar a sociedade a conviver sob as regras não do século XVIII, mas, sim, do século XVII, lançando ao abismo a cultura construída pelo homem civilizado.

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