A ‘velha política’ mostrou que ainda está viva. Mas há novidades

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É preciso de uma lupa potente para entender o recado das urnas nessas últimas eleições. Acredito mesmo que a grande maioria das pessoas começou a perceber que a guerra ideológica não coloca comida no prato e cada vez mais desejam respostas concretas, como afirmou Rodrigo Perez Oliveira em artigo da revista Fórum esta semana – mesmo que esta percepção seja enten­dida, em um primeiro momento, como o voto em candidatos dos partidos da velha política. E aqui eu lembro do DEM, PSD, PP, PSDB, PMDB e outros que foram os vitoriosos no número total de votos, nas prefeituras e cadeiras legislativas conquistadas.

Por outro lado, a onda conservadora que elegeu Bolsonaro em 2018 parece ter arrefecido. Nunca é demais lembrar que, antes de derrotar o PT, Bolsonaro derrotou, dentro do campo conservador, a direita tradicional, até então liderada pelo PSDB. O resultado das eleições municipais de 2020 aponta para a recuperação da velha direita, ou da “direita democrática”, termo meio confuso, mas que, depois do bolsonarismo, passou a ser usada pelas mídias. A Rede Globo, por exemplo, explorou ao máximo a derrota de candidatos apoiados expressamente por Bolsonaro e exaltou a vitória do que ela chama de “centro”.

Mas não foi só Bolsonaro que sofreu uma grande decepção. O PT experimentou a maior derrota de sua história. Pela primeira vez, o partido foi derrotado dentro do próprio campo popular e progressista. PSOL, PDT, PCdoB e PSB superaram o PT em capitais importantes, como Fortaleza, Recife, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Belém. Mas o PT continuará sendo a vedete da política nacional. O lavajatismo venceu. É inegável. “O partido que fez nascer o melhor Brasil possível, foi engolido pela sociedade que ajudou a criar”, como afirma Rodrigo Perez Oliveira.

Mas se utilizarmos a lupa de que falei no início deste artigo, é possível vislumbrar novidades. O identitarismo importado dos Estados Unidos mos­trou desempenho eleitoral razoável. Todas as candidaturas majoritárias que trouxeram a questão da diversidade ao primeiro plano de suas campanhas eleitorais esbarraram em teto muito baixo. A sociedade brasileira continua estruturalmente racista, machista e homofóbico. Mas na eleição para vere­adores, observamos a entrada em cena de novos personagens, alguns com propostas de mandatos coletivos e que vão atrair os holofotes, inclusive em Ribeirão Preto.

Pela primeira vez na história, a Câmara de Ribeirão terá uma bancada de vereadores que podemos chamar de popular e progressista. Não me lembro disso mesmo quando fui vereador entre 2001 e 2004, e o PT chegou a ter à época cinco vereadores. Mas os tempos são outros. Muita água passou por debaixo da ponte. Agora, com alguns resultados surpreendentes, a agen­da de combate ao racismo, ao machismo e à homofobia terá uma tribuna retumbante por aqui. E já vemos outros vereadores da velha política muito preocupados. Muito preocupados mesmo!

Um segundo recado observado pela nossa lupa é a urgente formação de uma frente ampla de esquerda, sem o protagonismo do PT, o que não signi­fica que deva ser sem a presença do PT. O antipetismo se tornou a narrativa mais perversa da semântica da crise dos tempos bolsonaristas. Segundo Oliveira, “o PT, hoje, é espantalho eleitoral que ajuda a eleger os sabotadores da democracia”, fato real, quer concordemos ou não com ele. Além da luta pela sobrevivência política, o PT terá que se reinventar em uma perspectiva não hegemônica.

Se as lideranças progressistas escutarem o recado, talvez seja possível a construção de uma frente ampla capaz de conduzir o Brasil no caminho de um novo pacto democrático. Se não entenderem, o máximo que conseguire­mos será substituir Bolsonaro por uma direita maquiada, de pose democráti­ca, que, sim, é melhor que o fascismo, mas está longe de ser aquilo que nosso povo necessita. O que parece claro é que sairão na frente em 2022 aqueles que melhor compreenderem o que as urnas falaram nas eleições municipais desse ano. É bom ter uma lupa de vez em quando.

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