Jornal Tribuna Ribeirão

Adoniran por ele mesmo

Neste texto escreverei frases e pequenas histórias ditas por Adoniran, para que nós tenhamos uma visão dele por ele mesmo.

Adoniran não perdia a oportunidade de fazer graça nem com a pobreza financeira de sua própria infância, dizendo: “Não nasci, porque pobre não nasce: aparece…”

Com relação ao seu nome artístico ele falou: “Se eu soubesse que ia ser radioator, teleator e artista de cinema, não mudaria meu nome, ficava João Rubinato mesmo. Mas cantar samba com nome italiano…não dá!”

Muitas atitudes de Adoniran entraram para o folclore. A mais famosa é a resposta que ele deu a Paulo Machado de Carvalho, seu patrão na Rádio Record, que sempre lhe recusava aumento dizendo que estava “estudando o caso”, até que Adoniran, já escolado pelo golpe que levara na Rádio São Pau­lo lá nos anos 1930, lhe respondeu: “Tá certo seu Paulo, o senhor continue estudando tá, e quando chegar o dia da sua formatura, me avise!”

Em relação às mulheres Adoniran dizia: “Mulher é uma mistura completa de vitaminas e sais minerais. Fortalece o homem, faz bem para a saúde.” “Tinha sempre muita mulher. Muita. Sempre fui muito feio. Eu é que ia lá, as mulheres não vinham, não. Eu que chamava: ‘vem cá, vem cá’. Elas até que gostavam de mim.” “Elas tinham medo da minha cara. Nunca tive nada com colega minha. Ninguém me dava atenção. Eu não existia, apesar de cantar a muito tempo.

Já trabalhava no rádio. Já era alguma coisinha. Podiam falar pelo menos ‘boa tarde’ comigo.”
A imagem mais marcante que muitos têm do Adoniran é o do comercial da cerveja Antarctica, nos anos 1970, onde o bordão era “Nóis viemos aqui pra beber ou pra conversar?”, dito por Adoniran. Com relação a esta propaganda o compositor falou: Eu gosto de fazer publicidade, quando me pagam direitinho. Aquela da cerveja, a empresa de propaganda Alcântara Machado tirou de uma anedota de um casal que foi para um motel e deu de conversar, conversar…Até que o homem disse: ‘Nóis viemos aqui pra conversar ou pra…’”

Quanto ao jeito errado de escrever e falar Adoniran dizia: “Não é fácil escrever errado como eu escrevo, pois tem que parecer bem real. Se não souber dizer as coisas, não diz nada…”

Adoniram se orgulhava de ser citado nas escolas como exemplo de como não se devia escrever. “Sou o único compositor que cria polêmica nas escolas, os professores ficam discutindo com os alunos as minhas letras e ensinando que é assim que se fala, mas não é assim que se escreve.”

“Pode vir vinte Mobral, todos continuarão a falar errado. O povo fala assim. A maioria fala errado. De vez em quando, ao falar com um doutor, eu posso até falar ‘nós devíamos…’ Mas é raro, é esquisito.” “Pra escrevê uma boa letra de sam­ba, sentida, humana, a gente tem que sê, em primeiro lugá, narfabeto.”

Um dos muitos tipos interpretados por Adoniran no rádio foi o profes­sor de inglês Mr. Richard Morris, uma ótima gozação à crescente mania de macaquear o idioma inglês. Numa das histórias, o professor Mr. Morris dis­se o seguinte: “Chesterfield Sereneide chatanooga Chu Chu, end mai réveri six Chevrolet laite páuver. Oh Yes – a traduçon deste frase que eu disse é a seguinte: ‘Tromba de elefante não serve para regar as flores do jardim’.”

Esse costume de escrever errado deu problema a Adoniran, por ocasião da regravação de Samba do Arnesto em 1973. O governo militar proibiu a regravação por causa dos erros gramaticais terem sido considerados ofensi­vos à língua portuguesa (embora haja uma “leitura” de que “Arnesto” seria uma alusão a Ernesto Geisel, presidente empossado em 1974).

No fim da vida, ao perceber que mesmo consagrado como sambista e ator, não chegara a conhecer a riqueza, passou a usar o bom humor como arma eficaz para enfrentar a realidade. Em 1978 ele se definiu assim: “Eu sou um cara triste, sabe, eu faço piada, mas é tudo por fora…”

No dia 22 de novembro de 1982 Adoniran faleceu, e no seu funeral es­tavam Geraldo Filme, Antonio Candido, amigos, familiares, companheiros de boemia, enfim, foi uma reunião popular, como convinha a um artista po­pular: “Nenhuma autoridade, como disse o maestro Júlio Medaglia, ‘graças a Deus’. Adoniran devia estar feliz, pois foi uma festa bem ao seu estilo.”
Salve Adoniran!

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