Para se divertir, convém não comparar esta versão de ‘‘Assas­sinato no Expresso Oriente’’ à mais famosa das adaptações do roman­ce de Agatha Christie, a de Sidney Lumet em 1974. A de agora, obra do shakespeariano Kenneth Bra­nagh (que também interpreta Her­cule Poirot) faz concessões à mo­dernidade. Mas, enfim, o espírito da obra da escritora inglesa está lá. O filme estreia nesta quinta-feira, 30 de novembro, nas salas de cinema instaladas nos shopping centers de Ribeirão Preto – RibeirãoShopping (UCI), Novo Shopping (Cinemark), Shopping Santa Úrsula e Shopping Iguatemi (ambos do Cinépolis).

Claro que Lumet não tinha os recursos visuais agora disponí­veis a Branagh. E esse os aprovei­ta com gosto, porém sem abuso. Tanto nos interiores luxuosos do trem, como nas externas, em que o comboio avança em meio à neve, carregando seus ilustres passa­geiros, o padrão visual é intenso. Impressiona. Não há overdose de recursos. Eles são usados para dar dimensão sensorial à trama, que inclui uma avalanche de neve e um acidente. Mas o mais interessante se passa entre os personagens e a relação que mantêm com o crime e com o passado de cada um.

O ambiente reflete um pouco o artificialismo que Christie impõe às suas tramas. Poirot é aquele cé­rebro absoluto, dono das famosas “pequenas células cinzentas”, que tenta desvendar um crime por artes apenas do raciocínio lógico. Poirot faz parte dessa dinastia ilustre, de Sher­lock Holmes, Conan Doyle, Auguste Dupin, de Edgard Alan Poe, passando pelo padre Brown, de Chesterton. A inteligência desvenda o mal e o ex­põe à fria navalha da lógica.

De tal forma que, para Poirot, to­dos em princípio são suspeitos para que, por exclusão, ele possa chegar a esse culpado único, que absolverá os outros, pois resume em si o pecado do crime e o expia. Esse é o percurso clássico, do qual Agatha Christie se desvia nessa história, como sabem seus leitores e os que viram os fil­mes anteriores baseados na obra. Será uma boa surpresa para os que não os conhecem.

Nesses termos, podemos des­confiar o que atraiu um ator e di­retor como Kenneth Branagh para esse projeto, além do óbvio inte­resse comercial. Assassinato no Expresso Oriente contém, em seu cerne, um dilema ético bem ao gos­to de quem se formou e foi alimen­tado pela convivência com o texto de Shakespeare.

Se o Edward Ratchett de Jo­hnny Depp não esconde sua con­dição de vilão, ele é incapaz de resumir, em si, todos os males do mundo. Neste mundo moderno, que já espanta Hercule Poirot, cul­pas e pecados estão divididos de maneira mais democrática. Saímos do mundo das certezas e entramos no do relativismo. A utopia do de­tetive, separar, pela razão, o bem do mal, já não pode se cumprir, de­talhe trágico que dá um toque de grandeza à história.

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