Aretha Marcos, filha do cantor Antonio Marcos

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Cantar uma música, bem ou mal, qualquer um canta. Agora, interpretar uma música, dar a ela algo além do que o compositor pode imaginar, isso é para poucos. Cito aqui dois intérpretes, Cauby Peixoto e Elis Regina. Cauby cantando “Bastidores”, de Chico Buar­que, e Elis com sua “O bêbado e a equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc, não tinha pra ninguém, eles entravam na alma das músicas e o resultado é o que tivemos o prazer de conhecer. Como dizia Belchior, depois deles não apareceu mais ninguém…

O cantor e compositor Antonio Marcos era um grande intérprete de suas composições e nesta semana recebi de Valter Fabris, amigo das antigas, um vídeo da cantora Aretha Marcos, filha de Antonio Marcos. Antes de cantar, ela conta uma situação emocionante que vou resumir pra vocês.

Diz ela que sua história com seu pai vai muito além do que se pode imaginar. Percebe-se que Antonio Marcos é uma constante em sua vida. Diz ainda que transcende a matéria no sentido de que ele se faz presente a todo momento e em seus shows ela conta o que vive com ele depois da passagem.

O que ouvi de Aretha me remete a meus filhos, que tiveram de partir. Vivo o mesmo que ela ou algo muito próximo do que ela relata, é impressionante a presença deles. Quando menos espero, por um motivo qualquer, penso num deles e de imediato sinto-o ao meu redor, e ele parece me dizer: “Vá em frente, pai, to aqui contigo”.

A presença deles é tão forte que às vezes estou sentado escre­vendo, me levanto, abro os braços e os fecho num abraço. Sinto estar sendo correspondido, meu corpo fica arrepiado, a emoção me invade, eu digo que os amo, agradeço a Jesus e a eles pela visita que sempre é muito rápida e continuo o que estou fazendo, me sentido leve como uma pluma.

Voltando a Aretha, diz ela que morava no Rio de Janeiro e foi até a avenida Paulista a trabalho. Conta que estava num dia de solidão profunda quando entrou em uma loja de discos, e para sua surpresa deu de cara com um disco de seu pai. Ela pegou o álbum e disse: “Nossa, pai, que coisa linda você se mostrar pra mim. Um beijo, obrigada”. Depois, saindo da loja, o hotel ficava na Bela Cintra, ela decidiu tomar um táxi. Ao entrar no carro, percebeu que o motorista estava ouvindo uma música e fez aquele movimento de desligar o som, já com o veículo em movimento.

Ela disse pra si mesma: “Aretha, pare com essa tristeza, vamos com­partilhar a vida”. Daí virou pro taxista e disse: “Querido, você desligou o rádio e eu gosto muito de música”. O homem respondeu: “O que estou ouvindo você não vai gostar, não é do seu tempo”. Ela respondeu: “Gosto de músicas de todos os tempos.” E ele falou: “Então vou te mostrar uma raridade, é a coisa mais linda que tenho na minha vida, esse cara que entrou no meu táxi e perguntou: ‘Você tem toca fita aí?’ Eu disse tenho, vou te mostrar, ele tinha acabado de gravar num ensaio.”

Ao ouvir a música, Aretha pensou: “É meu pai”. Naquele mo­mento o interior do táxi foi invadido por uma luz, ficando com uma cor diferente, e o taxista assustado perguntou: “Nossa Senhora! O que está acontecendo?”. Ela disse: “Nada, querido, siga, só me deixe chorar”. Ela lembra do motorista muito apavorado, olhando seu rosto pelo retrovisor, aquele quepe, aqueles “oclinhos…”.

No táxi parado em frente ao hotel, ela disse ao motorista: “Olha, meu nome é Aretha e eu sou filha do Antonio Marcos”. Emociona­dos, saíram do táxi e se abraçaram demoradamente. Depois o chauf­feur voltou ao veículo, tirou a fita e quis dar pra ela, que agradeceu e falou: “Ela é sua, foi um presente do meu pai pra você”.

O vídeo termina com um violão bem tocado e a voz linda de Aretha cantando a música da fita: “Você pediu e eu já vou daqui”.

Sexta conto mais.