As máscaras e a percepção de felicidade

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professor

Na Super Quinta-feira o Flamengo sagrou-se octacampeão brasileiro em uma rodada recheada de emoções, fato que poderia ser o tema da semana, porém na mesma data o Brasil registrava 1.582 mortes por Covid-19 nas últimas 24 horas, a maior marca até então, totalizando 251.661 óbitos desde o início da pandemia. Também na quinta, o presidente da repú­blica novamente roubou a cena. Sem qualquer referência aos milhares de falecidos, criticouas medidas de isolamento social e questionou o uso de máscara facial, importante instrumento de proteção individual.

Bolsonaro justificou que segundo um estudo alemão as máscaras apresentam alguns efeitos colaterais, inclusive a “di­minuição da percepção de felicidade“. Em postura totalmente diversa, o presidente dos Estados Unidos, fez um discurso pedindo unidade e solidarizou-se com os familiares dos mais de 500.000 estadunidenses mortos. Segundo Joe Biden é “de partir o coração”. Ele já tomou as duas doses da vacina e faz questão de propagar a utilização de máscara. Por aqui, as reiteradas manifestações presidenciais questionando as orientações das autoridades sanitárias, aliada à inefetividade do Ministério da Saúde, influenciam na diminuição da adesão popular aos cuidados com o contágio e aumentam considera­velmente o número de infectados e mortos.

O presidente também agitou a economiae sua máscara ideológica parece estar caindo. Eleito com o discurso de liberal e não intervencionista, agora decidiutrocar o comando da Petrobrás e criticar a política de preços, levando políticos e economistas a compará-lo com ex-presidente Dilma Rousseff que, preocupada com o controle da inflação, durante seu go­verno impediu reajustes nos preços dos combustíveis, o que posteriormente gerou perdas bilionárias à estatal.

Alguns setores da imprensa até questionam, mas grande parte aliada à militância virtual prefere propagar que está tudo bem e que os inimigos da nação é que tentam desestabi­lizar o governo. Quem deveria fazer o contraponto é o Con­gresso Nacional, notadamente os deputados federais, porém eles estão muito ocupados articulando a aprovação da PEC da Impunidade. E o povo? O povo segue letárgico, conivente, alheio a tudo e prefere direcionar suas atenções para outra frente, condenar os integrantes do BBB21.

Bola da Vez, Karol Conká despertou a ira nacional e recebeu mais de 200 milhões de votos, ou seja, 99,17% dos in­ternautas que entre as justificativas para eliminação apresen­taram: xenofobia contra Juliette; abuso psicológico a Lucas; briga com a rival Carla; discussão com Camilla; comporta­mento tóxico; manipulação dos aliados, mentiras e distorção dos fatos. Interessante é que, nos últimos três anos presen­ciamos as mesmas atitudes nas lideranças políticas nacionais, especialmente no presidente.

Ao sair da casa mais vigiada do país Karol fez uma autocrítica e reconheceu erros. A jovem rapper e sua família receberam inú­meras ameaças e agora anda amparada por psicólogos, assesso­res e seguranças. Tenta ouvir mais do que falar e insiste em lem­brar que aquilo era apenas um jogo e que aqui fora a realidade é outra. Em contrapartida, o jogo político é diferente, pois é real, as consequências são reais. Enquanto todos permanecem no jogo, a população é diariamente emparedada, perdendo emprego, casa, família, dignidade e até a própria vida. Tanto no BBB quanto na política, uma coisa é certa: com ou sem máscaras, a percepção de felicidade está cada vez menor.