A excelente historiadora e escritora Mary del Priore acaba de acrescentar à sua vasta obra sobre a história e as estórias de nosso país seu mais recente livro, “As vidas de José Bonifácio”. Com a profundidade de suas pesquisas e a leveza de sua escri­ta, o livro é leitura obrigatória para se conhecer de verdade a vida do Patriarca da Independência.

Ao contrário da literatura laudatória, que só destaca as virtudes de José Bonifácio, Mary del Priore analisa sem pro­selitismo quem foi o homem, o cientista e o político que tanta importância teve na formação do Brasil independente.

A primeira constatação: nosso personagem chamava-se, na realidade, José Antônio de Andrada, adotando o José Bonifácio somente mais tarde. Nasceu em 1763, na cidade de Santos, de família com boa ascendência, mas sem sangue fidalgo. Depois das primeiras letras e algumas viagens pelo nosso país, mudou-se para Coimbra, onde se formaria em Filosofia e Direito, especializando-se em mineralogia.

De volta ao Brasil,depois de viver 26 anos na Europa, já cientista de renome, convive com seus irmãos Antônio Carlos e Martim Francisco, que há tempo gozavam das benesses da burocracia, exercendo também polêmica atividade política. O Brasil era Reino Unido a Portugal e dirigido por D. João VI, o qual era sempre instado a voltar a Lisboa.

Com a Revolução Liberal de 1820, que cortou os poderes absolutos do rei e outorgou uma constituição liberal, jurada pelo soberano no Rio de Janeiro, esta pressão aumenta e, em 1821, a Corte finalmente volta para a Europa, ficando o Brasil sob o governo do Príncipe D. Pedro.
José Bonifácio teve profícua produção intelectual voltada para a formatação de um país independente, porém monárquico constitucional. Quando exercia as funções de Capitão Geral de São Paulo, eleito pela manifestação popular, foi chamado a ocupar o Ministério do Reino e dos Negócios Estrangeiros, tornando-se grande amigo e influenciador do jovem Príncipe.

Nesta época, já se falava em independência, que ocorre em 7 de setembro de 1822, com a atuação decisiva de José Bonifácio. Coroado Imperador, D. Pedro I manifesta desde logo sua tendên­cia autocrática.Toda a trama da independência, a influência da Maçonaria, a oposição a José Bonifácio e seus irmãos, a participa­ção da jovem Imperatriz Leopoldina, as primeiras ideias republi­canas são exploradas com riqueza pela autora.

José Bonifácio é a alma da convocação de uma Assem­bleia Geral Constituinte liberal, cujas ideiais desagradam o Imperador, que a fecha em 1823, ocasionando a demissão de José Bonifácio, sua prisão e exílio (1823 a 1829). As pressões contrárias ao absolutismo e ao centralismo do Imperador, obrigam-no a abdicar em 1831, nomeando, para surpresa de todos, José Bonifácio como tutor de seus filhos.

Há uma intensa agitação política a favor e contra o nome de José Bonifácio, que consegue se manter na tutoria até 1833, quando é destituído. Recolhe-se então a Paquetá, morrendo em Niterói no ano de 1838.

José Bonifácio foi um homem de vasta cultura e experiên­cia prática, um político liberal mas mandão e centralizador. Moldou com seus sonhos uma nação soberana, um Império liberal. Suas ideias foram as bases da Independência. Jogou com brilhantismo o difícil jogo político em um país recém li­berado de um reino português e com tudo por fazer. Mereceu pelo seu trabalho o título de Patriarca da Independência.

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