Bem-te-vi, my captain

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Hoje acordei com um corvo dependurado na fenda da mi­nha vidraça. Pra quem não sabe, o corvo é uma das espécies mais falantes do reino dos pássaros. A cena guiou-me para uma memória sua, my captain, outrora olvidada. Vivíamos nossa primeira manhã e despertei sentindo-me demasiada­mente inebriada com o corvo gritando seu sermão matinal na minha audição descansada.

Jogada aos seus braços, os gritos do corvo eram agravados pela atmosfera do nosso dormitório, que exalava o chulé que saltava da enorme boca do seu coturno, como se desenhasse no ar as palavras “positivo e operante”.

Quando vi você deitado ao meu lado, disse: – Se é que queres mesmo sentar praça por aqui, vá acostumando com os barulhos da casa. Depois dessa vieram muitas outras manhãs e nossos meninos nasceram (zero1, zero2, zero3, zero4), e o tempo curou o mau odor de seus pés com a ajuda do velho e bom Polvilho Granado.

Hoje poderia afiançar-te que preferia seus pés chulezentos a testemunhar no que você se transformou, um bad captan. Ontem, falou-se que você vai escorregar 1,2 trilhão de pre­sente aos banqueiros e aos trabalhadores darás a fome e uma banana. O corvo é a ave de mau agouro, ele hoje veio gritar em meus ouvidos que acarretarás ao Brasil maus presságios, muitas mortes e tempos sombrios, bad captain.

Quem te viu quem te vê, outrora você um ativista de quartel panfletário, que vivia lutando pelo direito à greve e melhoria de salários para os cadetes desprotegidos; hoje um presidente da república facínora que está sendo com­parado a Nero, que tocou sua lira enquanto Roma ardia em fogo. Quo-Vadis, My Captain. Bíblia em João 16:5, onde Jesus Cristo diz:

“Agora que vou para aquele que me enviou, nenhum de vocês me pergunta, para onde vais”. Eu lhe direi: Abre seus braços, meu irmão, deixa cair, pra que somar se a gente pode dividir? Saudações da sua, Canarinha.