Estou em casa, como diz Rita Lee na sua música “Mania de você” – “Nada melhor do que não fazer nada, só pra deitar e rolar com você” –, mas minha cabeça, sempre em processo de criação, botou pra funcionar a gaveta da memória e danou a relembrar várias situações por mim vividas.

Lembrei-me de uma maravilhosa resenha para homenagear Sócrates, bem ali naquela mesa em que nos sentávamos no Empório Brasília, nos velhos tempos. Estavam na muvuca um filho do Casagrande que, na época, tentava sua carreira no Botafogo.

Também estavam Paulo Cesar Camassute e Paulo Egídio, dois cra­ques apadrinhados pelo Doutor para jogar no Corinthians. Contaram detalhes de como chegaram ao Timão levados pelas mão do Magrão. Foi demais, o papo foi riquíssimo, a cerveja ajudava a revirar a memória e a coisa fluía que era uma beleza.

Perguntei a Paulo Cesar se ele chegou a jogar com Rivelino. Seus olhos brilharam e ele danou a contar. “Buenão, eu jogava no São Paulo em 1981 e Rivelino jogava na Arábia Saudita, brigou lá com o príncipe dono do time, voltou para o Brasil, e treinava no São Paulo que tentava contratá-lo. O técnico da seleção da Arábia Saudita era o brasileiro Ru­bens Minelli, que armou um jogo contra o São Paulo, cujo técnico era o Formiga. Rivelino jogaria para o Tricolor, eu nem acreditava que ia jogar ao lado do Riva, meu ídolo, Buenão”.

E continuou: “No vestiário antes de subir pro gramado, Riva me chamou e disse: ‘Ô Paulo Cesar, fique ligado, quando Dario Pereira me passar a bola, darei um toque de leve pra preparar o chute, daí você, que é muito rápido, já pode disparar em diagonal. Vou bater de três dedos’. Buenão, eu olhei pro seu Formiga que ouvia a conversa e ele completou: ‘Faça o que o mestre lhe pede’”.

Paulo Cesar emendou: “Não deu outra, parceiro, quando o vi receber do Dario e dar aquele toquinho pra bater, saí como ele pediu, eu corria olhando a bola, ela vinha girando e caiu bem na minha frente, veio com açúcar e com afeto entre eu e o goleiro. Daí, meu amigo, meti lá dentro e saí pro abraço. Ganhamos o jogo por 5 x 0, fiz três, todos lançamentos do Riva, e de lambuja chutei uma bola na trave (rsrsrsr)… Que craque era Rivelino, Buenão!”

Nesta época, o Flamengo de Zico e companhia foi jogar no Morumbi e Paulo Cesar acabou com o jogo, jogou muito nosso Paulinho. O camisa 10 do Mengo ficou encantado e perguntou para um repórter: “Que menino é esse que matou meu time?” “Esse é Paulo Cesar, Zico”, disse o jornalista. O Galinho até comentou: “Ele no meu Mengo ia arrasar”.

Sócrates e a venda de um apartamento pro Mazinho. Paulo Cesar lembrou-me de uma noite no Empório Brasília em que estávamos numa galera de primeira, a resenha e causos matavam todos de tantas risadas. Na roda de prosa estavam Sócrates, eu, Paulo Cesar, Dácio Campos, Mazinho e mais amigos que agora não me lembro.

Sócrates estava com a corda toda. Quando estava assim, mandava uma atrás da outra, adorava contar o que aprontava com os amigos, e a bola da vez naquela noite foi Mazinho. É o seguinte: Mazinho comprou um apê do Doutor e na negociação, disse Magrão, vieram de Sampa os pais do amigo. Sócrates baixou o preço do imóvel até R$ 80 mil, mas o pai de Mazinho disse só dispor de R$ 55 mil e ficou naquele vai não vai.

Até que Sócrates deu uma sugestão para os R$ 25 mil restantes. Disse ele: “Mazinho, a gente sai sempre juntos e dividimos a conta. A partir de hoje, você paga minha parte todas as vezes que sairmos juntos e vai abatendo, fechado?” O pai do Mazinho, achando um bom negócio, bateu o martelo.

A vida seguiu e nessa noite, no nosso bate-papo, Mazinho argumen­tou que não havia sido um bom negócio, pois não era todo dia que ele tinha grana. Sócrates disse: “Mazinho, trato é trato”. Rimos muito, pois para o Magrão o que menos importava eram bens materiais. Tudo se ajeitou. A noite invadiu a madrugada e a gente lá.

Sexta conto mais.