Jornal Tribuna Ribeirão

Caburé, o rei dos boêmios

Mais uns causos do Caburé, o figura. Quem teve o prazer de desfrutar de alguns momentos com ele, pode acreditar, ganhou um presente de Deus. Era uma criança de alma pura, chamava todo mundo de “Muchacho”, palavra mexicana muito usada nos antigos filmes de faroeste. Dono de um coração que acalentava o mundo, dividia-o com quem estivesse com ele, podia ser até aquele amigo de infância que acabara de conhecer no bar.

Caburé sempre dizia: “Buenão, é nos bares que você encontra os amigos mais sinceros, os verdadeiros”. Filosofando, mandou essa, “Às vezes vivo momentos de Vinicius de Moraes, que disse: ‘Sofre­ria muito se perdesse a mulher amada, mas morreria se perdesse os amigos que amo’.” Era assim que esse grande músico levava a vida.

Quando tinha a oportunidade de sentar com ele em uma mesa de bar, procurava desfrutar o máximo daquele momento, ouvir seus causos, deixava tudo isso acumular nas gavetas de minha me­mória, onde vez em quando revisito como estou fazendo hoje.

Ele era soldado da nossa Polícia Militar, mas ao tirar a farda se transformava em Caburé, o grande artista. Certa noite, saímos juntos e ele mandou ver muitas histórias. Essa que narro agora é genial. Estava acontecendo a revolta dos canavieiros em Guariba, os policiais, mesmo de folga, foram escalados para reforçar o policia­mento, já que o caso ganhou grandes proporções.

No meio da tropa estava Caburé. Nesse mesmo dia, Ribei­rão Preto recebia a visita do presidente João Batista Figueiredo. Após cerimônias, ele foi para um coquetel no hotel Stream Palace. No meio daquela muvuca toda, perguntou se na cidade havia algum seresteiro. Alguém gritou: “Tem o Caburé, bom de violão e canta muito.”

Foi aquele quiproquó pra localizar o Caburé, que estava no meio de um canavial. Só sei que uma hora depois ele passou pelos amigos que faziam a segurança do homem, todo estiloso, perfumado, violão na mão e disse: “Aí, Muchachos, eu agora vou cantar pro presidente.” Foi entrando e sentando ao lado do Figueiredo, que logo pediu uma música do Altemar Dutra. Foi atendido no ato e nosso cantor desfilou toda a obra do Altemar.

O presidente ficou encantado com Caburé e seu jeito de tocar violão, com uma dedeira que ele dizia ser de chifre de boi. O som das cordas saía limpinho. Depois de vários uísques, Caburé estava mais solto e falou: “Presidente, quero cantar uma música espanhola em especial para o senhor”. O homem olhou para nosso cantor e disse: “Quero ouvir”. Caburé mandou ver “Granada”.

Caburé arrasou, e quando terminou o presidente o abraçou. A noite foi avançando a madrugada, nosso artista ficou íntimo do Figueiredo, tanto que passou a ser figurinha carimbada na Granja do Torto, em Brasília. Qualquer evento por lá, o homem ligava pro Caburé e mandava um jatinho buscá-lo aqui em Ribeirão Preto.

O carisma de Caburé cativava fazendeiros e empresários bo­êmios, que decidiram presentear o artista com um bar. Durante uma reunião, decidiram que o nome da bagaça seria “A volta do boêmio”. Ficava na rua Américo Brasiliense, esquina com a Marcondes Salgado. O som do bar era de primeira e os caras contratavam cantores das antigas de Sampa, logo virou sucesso, os músicos daqui estavam sempre lá.

A vida seguiu e um belo dia, passando em frente o local, vi uma tabuleta de aluga-se. Fiquei cabreiro até encontrar Caburé no bar do Carlão. Ele disse: “Buenão, você me conhece bem, agora veja, os músicos da cidade passavam por lá, davam uma canja, tomavam cervejas e eu não tinha coragem de cobrar suas despesas. Tive que fechar, parceiro”. Depois mandou essa perola: “Eu nasci pra frequentar bar e não pra ser dono.”

Sexta conto mais.

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