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Campeã no Corinthians, Katiuscia define comunidade LGBT+: ‘Autonomia e liberdade’

Por Rafael Sant’Ana Ferreira, especial para a AE

No dia 26 de setembro, o Corinthians bateu o Palmeiras na Neo Química Arena e sagrou-se tricampeão do Campeonato Brasileiro Feminino. Após a partida, a lateral Katiuscia fez uma homenagem à comunidade LGBT+, levando a bandeira arco-íris, símbolo do movimento, para campo e lembrando da importância do respeito à diversidade no futebol.

“É uma luta diária para muitas pessoas. O Brasil é o país que mais mata pessoas LGBT+, estamos aqui para mostrar que a gente está nessa luta juntas. Que a gente ama também, que tem que existir amor e respeito”, disse. Em entrevista ao Estadão, Katiuscia contou um pouco de sua trajetória no futebol e da força desse Corinthians dominante no cenário brasileiro. Também comentou sobre o significado da comunidade LGBT+ em sua vida, como o assunto é tratado no vestiário corintiano e pelo clube, e quais ações o futebol feminino pode tomar para continuar sendo influente em questões sociais.

Aos 27 anos, a lateral-direita pode dizer que começou tarde no futebol. Sua trajetória teve início em 2012, quando acabou passando em uma peneira no XV de Piracicaba, no interior de São Paulo. A atleta ficou um ano na equipe e, após passar rapidamente por um clube de Botucatu, chegou ao Rio Preto, clube de prestígio no futebol feminino, mas que fechou as portas em 2019.

“Os dois clubes foram importantes no meu desenvolvimento e crescimento como atleta. O XV principalmente por ter trabalhado com o treinador Tchelo, que desde o início confiou no meu potencial e me ajudou muito taticamente e tecnicamente”, relembra Katisucia.

As boas atuações na equipe impressionaram o Santos, que a contratou no início de 2015. Os dois primeiros anos de Katiuscia em sua cidade natal foram de poucas presenças em campo, apenas três. Mas em 2017, as oportunidades começaram a surgir para a lateral. Além de virar titular do Santos, ela foi importante na campanha vencedora do clube no Campeonato Brasileiro. No entanto, não teve seu contrato renovado e voltou para o Rio Preto, onde foi campeã paulista e eleita melhor lateral-direita da competição.

O sucesso no interior fez com que o técnico do Corinthians, Arthur Elias, se interessasse pelo futebol de Katiuscia e a levasse para a capital em 2018. Logo no primeiro ano, a jogadora foi vice-campeã paulista e campeã brasileira pela segunda vez na carreira. Além de estender o vínculo com a equipe ao fim da temporada, a atleta ganhou uma bolsa de estudos meses depois e decidiu cursar Processos Gerenciais.

A parceria com o treinador corintiano motiva a jogadora a continuar vencendo e evoluindo na carreira. “A relação é muito boa, estou na minha quarta temporada com ele, sei que ainda tenho muito a evoluir aqui no Corinthians. Fico feliz de a cada ano que passa ir conquistando a confiança dele, o nível de competição aqui no Corinthians é altíssimo”, afirma.

TÍTULOS NO FUTEBOL FEMININO – Desde que chegou ao Corinthians, Katiuscia conquistou seis títulos, incluindo a Libertadores Feminina de 2019 e mais duas taças de Brasileiro, em 2020 e 2021 A lateral explica o motivo de tanto sucesso em campo. “A maior força é o nosso elenco. Queremos sempre mais e acreditamos muito no trabalho da nossa comissão”, diz. O clube paulista tenta ser referência não apenas em campo, como também fora dele.

Recentemente, as equipes masculina e feminina integraram uma campanha conjunta de divulgação do terceiro uniforme para a temporada 2021/22. A camisa, na cor roxa, contém a frase “Respeita as minas” e é uma homenagem às mulheres, que formam 53% da torcida corintiana.

LGBT+ – O apoio e tratamento igualitário às mulheres do time faz parte da identidade do clube, e isso inclui a liberdade para falar de temas relacionados à comunidade LGBT+. “Sim, eu sinto que nós temos liberdade e o apoio de todos aqui no Corinthians para tratar desse assunto. É um ponto pacífico entre nós. Inclusive, esse ano, na ocasião do Dia Internacional Contra a LGBTfobia, todas nós entramos em campo com máscaras e pulseiras estampadas com a bandeira da diversidade”, disse.

Questionada sobre o significado da comunidade em sua vida, Katiuscia dá uma simples e clara definição. “Significa autonomia para ser quem você quiser e liberdade para viver com quem desejar. Se não prejudica ninguém, por que ser contra?”, questiona.

O futebol feminino se orgulha de usar sua plataforma para combater o preconceito e buscar uma sociedade mais justa para todos. Quando a atacante do Palmeiras, Chú Santos, fez um comentário homofóbico em seu perfil, as jogadoras não se calaram e protestaram contra a atitude da companheira de profissão. Agir assim, de maneira assertiva, é um dos objetivos das jogadoras que atuam no Brasil.

“Nós, atletas de futebol, temos um público numeroso de crianças, adolescentes, adultos e idosos. Mas esse público varia não só em idade, como também em outras características sociais. Por isso, o que nós do Corinthians temos feito é tentar contribuir para os debates e o bom desenvolvimento da nossa sociedade”, afirma Katiuscia.

“Nesse caso, em específico, estamos falando em enviar uma mensagem de respeito a orientação sexual de cada um. Mas nós também procuramos atuar em outras frentes. Há poucas semanas, por exemplo, realizamos doações de cestas básicas. Sabemos que, também por conta da pandemia, muitas famílias estão enfrentando dificuldades para garantir a alimentação. É assim, com responsabilidade e empatia, que temos procurado causar algum impacto na sociedade”, concluiu.

Após faturar o Campeonato Brasileiro, o Corinthians se voltou para a disputa do Paulistão Feminino. Invicta, a equipe terminou a primeira fase da competição na liderança, com 31 pontos (10 vitórias e 1 empate). Na semifinal, o adversário é a Ferroviária, atual campeão da Libertadores Feminina e rival da decisão regional do ano passado. O primeiro jogo terminou com vitória do Corinthians por 1 a 0. A volta acontece no dia 31, na Neo Química Arena. Do outro lado, Santos e São Paulo disputam a outra vaga na final.

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