Cantar na noite

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Quero dedicar minha crônica desta sexta-feira aos amigos que cantam na noite. Sou mega fã de todos, a missão deles aqui na terra é massagear saudosos corações, consolar corações apaixonados, alegrar a alma de boêmios e solitários… Muitos músicos ou cantores não se dão conta de sua importância e do quanto são admirados.

O cachê é bem menor do que eles merecem, eu sei, sempre foi assim, mas o público não sabe, até pensa que se ganha rios de dinheiro cantando na noite. Muitas vezes me fizeram essa pergun­ta: “Buenão, você ganhou muito dinheiro com a música?” Sempre respondi que dinheiro não ganhei, não, mas onde a música me levou poucos podem chegar. As pessoas que conheci e com quem convivi poucos terão acesso. Portanto, o que ganhei com a música não se compra com dinheiro.

Ribeirão Preto teve um clarinetista que era bamba, seu nome era Siles. No fim de sua vida, como a maioria dos músicos das antigas, teve que passar pelo Asilo Padre Euclides. Pois bem, quando um músico lamentava estar em situação perrengue, o sábio artista Siles dizia: “Olha aqui, ô fulano, lá no céu há uma fila com milhares de bebês preparados para nascer. Deus passa a mão na cabeça de dois ou três e diz: ‘Vocês serão músicos’.”

Cantei na noite por mais de 30 anos, foi muito sacrificante, conciliava dois trabalhos e até hoje agradeço a ajuda de amigos que trocavam de serviço comigo. O cantor da noite, antes de estar ali no palco, tem uma batalha enorme na montagem do repertório, e isso requer montar pastas com letras e mais letras de músicas, pois tem o dever de atender ao desejo musical de quem foi ali prestigiá-lo.

Sempre carregava comigo três pastas que armazenavam 600 músi­cas, mas cantava umas 80 por noite. Tinha uma seleção das mais belas canções italianas, espanholas, aqueles tradicionais boleros, cantei nem sei quantas vezes “Besa-me Mucho”. Das italianas destaco “Champagne” e “Roberta”, ambas de Pepino de Capri. A noite é uma escola e cantar em bares e restaurantes noite é uma atividade mais do que prazerosa.

Quando passei por uma cirurgia séria em 2010, meu saudoso filho Lucas me enviou uma mensagem psicografada, onde dizia coisas maravilhosas. Entre elas, escreveu: “Pai, sua missão nessa vida é cantar, levar mensagens em forma de música pra quem necessita ouvir.” Ouvindo seus conselhos, vez em quando passo a mão no meu pinho e vou até alguma casa de repouso. Canto lá um pouquinho e saio bem melhor do que quando entrei.

Certa vez, fui cantar numa casa de repouso no Jardim Paulista e uma das cuidadoras pergunto-me se podia cantar em outro lar, no Alto da Boa Vista, onde também trabalhava e que ninguém ainda havia estado. Disse mais: “Será um alento para os idosos”. Combina­mos o dia e a hora, ela organizou tudo pra quando a gente chegasse, comecei a cantar e percebi que um senhor numa cadeira de rodas se derreteu em lágrimas quando cantei “El dia em que me quieras”.

Ele não falava, mas balbuciava algumas palavras com dificuldade e a cuidadora o compreendia. Ele queria ouvir “A volta do boêmio”, imortalizadana voz de Nelson Gonçalves. Enquanto eu cantava, ele chorava, mas chorava tanto que acabou por me envolver. Tudo fiz pra não me emocionar e,¨com dificuldade, cantei até o final. A emoção entrava no meu peito, pois enquanto cantava imaginava pra onde a música havia levado aquele senhor, pra onde seu pensamento voou ao ponto de envolvê-lo daquela maneira.

É, meus amigos, a música tem um poder impossível de se medir. Sempre digo que a música é o alimento da alma. Por meus parceiros músicos, peço a Deus que abençoe a profissão que eles abraçaram, que proteja suas vozes, suas mentes, suas mãos, que vocês conti­nuem com suas missões. Vocês foram escolhidos por Ele.

Sexta conto mais.