Cartografia e Literatura: O conhecimento do interior da América do século XVIII

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A cartografia hispânica do século XVIII projeta-se, principal­mente, pelas terras do ultramar, permanecendo ainda viva e brilhan­te após a experiência colonial. Os cartógrafos de então tentavam fixar os limites de um império que já se anunciava no Novo Mundo. Na época, a cartografia regional da América, juntamente com a da Ásia e com a da África, estava, logicamente, mais atrasada do que a da Europa, haja vista a dificuldade de adentramento naqueles territórios tão extensos e repletos de barreiras naturais. Estas, muito mais difíceis de superar que a hostilidade nativa, limitando a área das cartas de navegação à área litorânea.

Numa época em que o meio usual de comunicação, e tráfego mercantil, era o barco, esta atenção ao contorno dos litorais era na­tural, e necessária, para dar continuidade à motivação expedicioná­ria dos navegantes Alejandro Malaspina e José Bustamante, os quais, no final do século, tentaram cartografar a costa ocidental do novo continente, desde o Estreito de Magalhães até a Califórnia. Entretan­to, no coração destes dois homens incendiava o desejo de desbravar, também, aqueles interiores coloniais, inventariando o território colonial de forma completa. Desejo, este, também ansiado pelos vices-reis, funcionários, aventureiros, comerciantes e, principalmente, missionários, os quais já anteciparam, neste movimento em direção ao progresso cartográfico, um novo, e amplo, campo de evangelização apostólica.

De fato, o conjunto de missionários pertencentes às mais diferentes instituições religiosas, dispersas pelo mundo ultramarino, desempenhou relevante papel no desenvolvimento cartográfico do século XVIII. D’Anville, por exemplo, valendo-se, em 1733, de dados religiosos dessas missões, gravou um mapa do Paraguai. Déca­das antes, em 1708, também o padre Samuel Fritz tornara público, em Quito, um mapa da Bacia do Amazonas, logo reproduzido em Paris. A contribuição de sacerdotes católicos, portanto, não se limitou, entretanto, à represen­tação dessas terras tão novas, tão longínquas, tão perdidas no tempo, alcançando, também, áreas não menos remotas do Pacífico. Exemplos? O Arquipélago Filipino, do qual o padre Murillo Velarde traçou uma carta precisa, e o Japão, cuja representação permitiu a criação de vários atlas.

Dentre os jesuítas, o empreendimento também permitindo o desenvolvimento cartográfico do território espanhol. Cláudio Martinez e Cláudio de La Veja, ambos padres jesuítas, destacando-se pela monumental Carta de Espanha, solicitada por Felipe V no período de 1739 a 1743. Desaparecida, atualmente, em decorrência da expulsão da Companhia de Jesus da Espanha no tempo de Carlos III. À Espanha coube, também, investimento em uma série de operações e viagens científicas na Europa, extremamente pródigas no período. Sob o incentivo de Fernando V, e de seu ministro, o Marquês da Ensenada, os espanhóis integraram movimentos centralizados em Paris, cujas ações prosperavam cientificamente.

Por sua vez, os marinheiros espanhóis Jorge Juan (1713-1773) e Antônio de Ulloa (1716-1795) participaram, na cidade de Quito, da mediação do arco do meridiano terrestre, em acordo com os projetos da Academia Francesa, a qual os elegeu como membros. Deve-se a Jorge Juan a fundação do Conservatório Astronômico de Cadiz, núcleo renovador dos estudos cartográficos, bem como, o estabelecimento dos contatos decisivos com os cartógrafos franceses, favorecendo o desenvolvimento da cartografia espanhola. Os melhores peritos espanhóis, Tomas Lopez e Juan de La Cruz, recolhendo da França as novas técnicas e achados topográficos que revelaram, com precisão, a cartografia de então.

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