A dor persistente costuma ser muito comum em idosos, resultando em substancial morbi­dade. Levantamento recente, considerando amostra nacionalmente representativa de idosos, revelou que 67% dos mesmos registraram dor de intensidade moderada ou maior ao longo das últimas quatro semanas, com a prevalência da dor não variando significativamente nos grupos etários considerados de 60 a 74, 75 a 84 e entre 85 e mais velhos. Todavia, com a prevalência da dor podendo aumentar quando os idosos se aproximam do fim da vida, bem como, com pacientes muito idosos frequentemente apresentando dor em múltiplas regiões, agregando-a a sofrimento e incapacidade.

Uma vez que a presença de dor é associada à piora nas condições de saúde, idosos com dor vivenciam uma maior incapacidade funcional, quedas, depressão, diminuição de apetite, perturbação no sono e isolamento social quando comparados com os que não registram dor. Neste contexto, o impacto multidimensional da dor pode deixar os idosos mais vulneráveis e menos hábeis em eficazmente responder aos estressores fisiológicos, contribuindo para o agravamento do desenvolvimento da fragilidade. Entretanto, embora dor possa ser adequa­damente manejada e controlada na maioria dos pacientes idosos, ela, nos mais velhos, nos menos afluentes, nos mais desfavorecidos e naqueles com incapacidade cognitiva, não recebe, de modo geral, um tratamento efetivo.

Uma vez que tomar uma decisão clínica compartilhada é essencial para equilibrar os benefícios e os ônus das intervenções referentes ao manejo da dor, incluindo abordagens farmacológicas e não farmacológicas, os objetivos de um programa de manejo de dor devem ser delineados antes do inicio de qualquer terapia com contínuo monitoramento dos alvos do tratamento e os conseqüentes efeitos adversos ao longo do tempo. Neles, os pacientes e os familia­res devem ser educados para que a dor possa ser reduzida com os atuais tratamentos disponíveis e devem entender que completa eliminação da dor geralmente é um objetivo inatingível.

Assim considerando, uma avaliação de dor adequada é fundamental no processo otimizado de manejo da dor. Dado que os idosos freqüentemente sofrem com persistente dor por vários anos, os clínicos devem integrar uma história compreensiva e um completo exame físico associados com testes diagnósticos válidos e fidedignos antes de desenvolverem um plano de tratamento. Independente da escala, questionário, ou inventário, empregado no pro­cesso de avaliação e mensuração da dor, os seguintes componentes devem fazer parte de uma avaliação padronizada: presença de dor, intensidade da dor, características da dor, fisiologia da dor, interferência da dor com as atividades físicas e morbidade relacionada à dor, condições dolorosas, comportamentos expressivos da dor, tratamentos da dor, estilo de enfrentamento da dor, funções sensoriais e contextos sociais afetados.

Nunca é demais destacar que, na população idosa, independente de quais sejam os instru­mentos de avaliação e mensuração de dor a serem empregados, devemos registrar os compo­nentes sensoriais e cognitivos que são freqüentemente prejudicados com o envelhecimento. Resultados de estudos neurofisiológicos e de neuroimageamento revelam que idosos são particularmente susceptíveis aos efeitos negativos da dor. Neste contexto, a inabilidade dos mesmos para comunicarem adequadamente dor na demência severa, ou em outras condições neurológicas graves, tem se tornado uma grande barreira para um tratamento eficaz e seguro.
Logo, ao lado das escalas de registros verbais (o padrão-ouro), escalas comportamentais e as escalas baseadas em indicadores fisiológicos, o estudo sistemático das expressões faciais (muito utilizadas em populações não verbais) através de sistemas computadorizados têm identificado aspectos, ou características, que são altamente específicas da experiência de dor, com potencial aplicação futura no processo de avaliação em pessoas com demência severa. Importa mencionar, todavia, que várias ferramentas de avaliação da dor pivotadas nos registros dos comportamentos, dos indicadores fisiológicos e no auto-registro da dor têm se revelado tanto válidas quanto fidedignas do ponto de vista psicométrico e com utilidade prática aferida para serem usadas em pessoas com demência ou com outras desordens neurológicas graves.

Todas estas técnicas necessitam, no entanto, serem interpretadas no contexto dos vieses cognitivos do observador (clínico), das variáveis contextuais e considerando o estado global da saúde e bem-estar subjetivo dos indivíduos.

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