Meu dileto amigo, Rui Flavio Chufalo Guião, sua cultura, inteligência e sensibilidade, brindou-nos, na semana passada, com excelente narrativa histórica sobre Cristovão Colombo, descobridor das Américas. Peço-lhe para dar sequência, adicionando a interpretação filosófica sobre essa narrativa, que é de autoria de Marcia Tiburi, no seu precioso livro “Complexo de Vira Lata – análise da humilhação brasileira”, que, por coincidência, acabara de lê-lo.

A reflexão dela se inicia com a intuição de Nelson Rodrigues, que escre­vera, em 1990, sobre o preconceito do vira-lata do brasileiro. Ele analisou o trauma causado em 1950 pela derrota brasileira, no Estádio do Maracanã. A seleção brasileira disputaria a Copa do Mundo e seria campeã naquele ano.

Ela se refere ao “complexo de Colombo”, como a matriz que abriu as Américas à colonização, ou seja, a humilhação gerada pela ambição desvairada de riqueza com a vestimenta da religião, que viria colocar os nativos na trilha do paraíso celeste. Ontem, a promessa era católica, hoje, é a dos pentecostais.

Mas, quando se fala em colonização fala-se da expropriação subjetiva do espirito pelo homem branco, sua sagrada branquitude, que chegou atualmente à “Supremacia branca”, em grupos espalhados por muitos países, e que orquestram discriminação e violência. E ainda a expropriação do co­lonizador realiza-se na comunidade colonizada, territorial e culturalmente, vampirizando os nativos, mitos e crenças, que compõe o saber acumulado pela experiência original e milenar vivida na intimidade da natureza, suas plantas, seus animais, seus rios e florestas, seu céu, dono do sol e da lua.

Colombo ensina-nos a não distinguir os diferentes, as individualidades, taxando os nativos, e com um único designativo – índios, logo que chegou em 1492 a Guanahani, hoje El Salvador. Ele “é o primeiro deslumbrado com o estrangeiro, o primeiro explorador de corpos e imagens alheios. Podemos dizer que ele é o primeiro publicitário”.

Quando perguntaram a Colombo o que ele gostava de comer, e ele respon­deu que era ouro, uma aureola de divindade foi antevista pela ingenuidade do chefe nativo, e estranha hipnose dele se apossou, irradiando-se por milhares de combatentes indígenas, derrotado se subjugados por 157 espanhóis.

A equação colonizador-colonizado tem como essência a humilhação do outro, invisível como pessoa, e “que virou tecnologia política”. A humilhação leva o colonizado à imitação do senhor.
Certo que a vestimenta dessa realidade mudou na sequência dos anos, atuando até os dias atuais, sobre países e sociedades pobres ou “em vias de desenvolvimento”, inclusive através da colonização digital.

O dominador necessita impor seus valores e sua cultura, substituindo a bus­sola dirigente da cabeça da comunidade a ser dominada. O “descabeçamento”, ou seja, a cabeça separada violentamente do corpo deitado,como na morte do inca Atawuallpa, condenado a pena do garrote, é historicamente o exemplo dessa força imperativa e simbólica da expropriação do espírito da nação.

Na garimpagem atual como se identifica sinais oficiais desse espírito do vira-lata?
Nosso país está assolado por esse espírito nanico.O Presidente empossa­do, imediatamente viaja, e bate continência à bandeira estrangeira, sem que a brasileira estivesse hasteada ao lado.

Imediatamente declara adesão incon­dicional à política externa norte-americana. Mais um exemplo: “O Brasil paga para ele trabalhar para mim”, disse o general norte-americano do Comando Militar do Atlântico Norte, apresentando o General brasileiro, como seu serviçal.

O que ele está fazendo lá? Estamos no Atlântico Sul. Outro exemplo é tirado da omissão político-administrativa do governo federal na pandemia, contra regras transacionais e nacionais. Além de não saber que a coordena­ção nacional é obrigatoriamente dele, por força da Constituição, optou por ficar omisso, culpando outros.

Viu-se assim o sistema nacional da vacinação, que era exemplar, ser desacreditado pela negativa ignorante da vacina, pela negativa da prevenção com o uso da máscara, alimentando a política contra a ciência. Agora, corta­ram 600 milhões do orçamento federal da pesquisa cientifica. O que esperar de um país que deseja destruir a ciência? Muitos cérebros brasileiros estão deixando o país, desesperançados.

A submissão visível ou disfarçada impede o Brasil de definir o que quer de si e para si mesmo.