Como nasceu a maravilhosa música ‘Tocando em frente’

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Faz algum tempo, assistindo ao quadro “Pra quem você tira o chapéu”, do Programa Raul Gil, o convidado era Sérgio Reis, que Sócrates chamava de “Grandão”. Em contrapartida, ele tratava o Ma­grão de “Comprido”. Pois bem, no bate-papo Raul Gil perguntou a Serjão: “Tá morando onde, Serjão?” Ele riu um bocado e disse estar morando na Serra da Cantareira. E complementou: moram lá Almir Sater e Renato Teixeira.

Depois, rindo e balançando a cabeça, disse: “Sabe, Raul. A gente vivia lá no maior sossego, na maior paz, mas depois que o capetinha do Christian, que faz dupla com seu irmão Ralf, mudou pra lá, e pro meu azar mora perto de mim, nosso paraíso mudou muito. Esse Cris­thian só apronta, toca a campainha de nossas casas e sai correndo…”

“Vamos até o portão pra ver quem é o engraçadinho e olha lá o capetinha dando risada em frente de casa. Acena com a mão e entra correndo. Qualquer dia vamos dar o “troco” (rsrsrs). Já que falamos de Renato Teixeira e Almir Sater, o primeiro é autor de “Romaria”, imortalizada na voz de Elis Regina, e também é o compositor de “Frete”, tema do seriado de TV “Carga Pesada” e que eu adorava, tanto a música quanto a história dos carreteiros Pedro e Bino.

Mas, vamos à história da música que os dois nos presentearam. Renato Teixeira, numa entrevista na TV, contou que acorda cedo. Certa manhã, ligou pro seu compadre e vizinho Almir Sater e falou: “Almir, vamos fazer uma bacalhoada?” Almir disse: “Ô, compadre, excelente sugestão. Vamos sim”. E Renato emendou: “Então tô pas­sando aí pra te pegar, vamos no Mercadão, lá tem tudo que precisa­mos”. Renato e Almir são compadres, um batizou o filho do outro. Além de que, a filha de um é casada com o filho do outro, só sei que é o maior rolo (rsrsrs).

Já na casa do compadre Almir, Renato tocou a campainha, Almir com aquele seu jeitão atendeu e falou: “Entra, compadre, vou passar um café no coador de pano, bem do jeito que você gosta, a água tá quase fervendo”. O velho compositor destramelou o portão e foi logo acompanhando seu parceiro. Numa enorme varanda, Almir, de forma bem caseira, passou água quente no coador, colocou o pó na medida e começou a passar o café.

Renato disse que o aroma do café era tamanho que se espalhou pelo ar. Tudo ali estava delicioso. Observou várias violas do Almir encostadas na parede, perguntou ao compadre violeiro quantas ele tinha. “Nem sei”, respondeu o parceiro, “pois tenho violas em vários lugares e esta semana comprei mais duas”. Com o café ainda passando, Almir passou a mão em uma delas e disse pro Renato. “Ô compadre, ouça só o som desta viola novinha”.

Em seguida fez uns ponteados lindos, bem melódicos, e o velho compositor falou: “Mas que linda melodia! De quem é essa música?” Almir disse. “De ninguém, criei agora de improviso”. “Pois toque outra vez”, pediu Renato. Almir repetiu o solo e, no mesmo instante, Renato escreveu os versos iniciais… “Ando devagar porque já tive pressa e levo este sorriso, porque já chorei demais…”

Nascia mais uma pérola do cancioneiro popular brasileiro. En­quanto o café passava, Renato letrava os ponteados do parceiro e a música ia nascendo como que por encanto. Bebericando aquele café de boiadeiro, coado em coador de pano, Almir continuava a pontear a viola criando a melodia e Renato a vestia de versos como “conhe­cer as manhas e as manhãs, o sabor das massas e das maçãs…”

Minha geração pode se considerar privilegiada, ter nascido nessa época de grandes compositores, como estes dois brasileiros. Tomara que o Christian dê um refresco para seus vizinhos (heheheheh).

Sexta conto mais.