Conto “El guajhú”, de Gabriel Casaccia (Parte 2)

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Neste, ao passar pela casa de Ña Taní, subindo a ladeira em direção à “colina”, um cachorro latindo saltou de dentro contra a paliçada de madeira torta e trêmula. Tão grande foi o horror e a emoção de Tomás que ele saltou para o meio da rua e, tropeçando entre as pedras, acabou caindo de cara. “-Añá membyré! -” ele rugiu ao se levantar. E acrescentou: -Yaguá yeby-mavaerá! (7). Ele, geralmente tão trabalhador, tão determinado e inescrupuloso, sentia que estava perdendo as forças nessa luta de braço contra seu próprio medo. Às vezes, sentia uma vontade veemente de fugir de Areguá e de tudo que lhe trouxesse lembranças do irmão e de Barcino. Após o choque de momentos antes, já na “colina”, perto da igreja, ouviu, nova e distintamente, o maldito uivo. Parecia sair de trás da igreja. Ele circulou rapidamente, quase correndo, e ficou surpreso ao não encontrar nada. Começou a acreditar, então, que esse uivo era criação de sua fantasia. Desde que voltou do cemitério, o uivo estava perfurando suas orelhas, cavando em seu cérebro, picando seu coração. Às vezes ele se tornava quase humano. Tomás mal conseguia pensar, sua cabeça estava girando, como se fosse desmaiar.

Do outro lado ficava a loja e o cabeleireiro da Cardozo, exibindo uma placa com letras airn as r e tortas. Entrou. A congregação de patronos, já numerosa, recebeu Thomas com simpáticas manifestações, convidando-o a beber. Uma hora depois, completamente bêbado, perdido no medo, sem se lembrar de Barcino e dos seus uivos, Tomás começou a falar, a contar piadas e a recuperar a sua velha pose e atrevimento. Entre risos e brincadeiras dos amigos, embora à medida que avançava na história todos se tornassem sérios, ele contava com grande desenvoltura que, com uma broca, havia feito dois ou três furinhos na canoa do irmão, que acabara de chegar. No meio do lago percebeu que estava vazando. Ele acrescentou que ouviu de costas seus gritos de airn a e testemunhou o naufrágio da canoa, bem como os esforços que ele fez para se salvar. De repente, ele parou e saltou para a porta. Olhou avidamente para as sombras da noite. Nada. Os airn as ficaram perturbados com a história do naufrágio da canoa e com os movimentos imprevistos. Com um olhar perdido, Tomás voltou ao seu lugar; e depois confessou em voz baixa que o que havia relatado era “Yapurei” (8).

Tudo isso lhe ocorrera muitas vezes, e, em duas ocasiões, ele começou a fazê-lo; mas sem saber por que adiou sua execução. No entanto, ninguém acreditava mais nele. Vendo a dúvida em todos aqueles olhinhos de cana, pôs como prova as palavras do curandeiro do povoado, que pensava que Ceferino morrera de disenteria. Mas era tarde demais. Ninguém tirou da cabeça dos airn as que Tomas havia matado seu irmão. De repente, agarrando um dos transeuntes pelo braço, ele disse com uma voz monótona: Rejhendú-pa? – (9). Ele tinha ouvido o airn de Barcino novamente. E aquele uivo parecia uma voz humana de luto. Mas era obra de sua mente, alterada pelo medo. Isso lhe trouxe alívio por um tempo. Aproximando-se da porta, olhou para for a airn as que ele só tinha que enfrentar sua imaginação. Era uma noite clara de estrelas e toda a praça estava envolvida no feitiço de uma brancura estelar. Tomás ficou espantado e desta vez perguntou a todos os airn as: Pejhendú-pa? (10). Mas eles responderam que não tinham ouvido nada enquanto o observavam com surpresa e curiosidade. Havia medo e angústia no rosto de Tomás. Mas depois de beber meio copo de “guaripola” (11), ele se acalmou pensando que era tudo ideias e medos produzidos pela cana.

Quando saiu do armazém, Tomas mal conseguia ficar em pé. Cambaleando, gritava com toda a força que não tinha medo do Barcino nem de ninguém e estava torcendo para a festa do Colorado. Ao cruzar a ferrovia, tropeçou e caiu no chão, lá ficando dormindo e babando. O sol já estava alto quando acordou. Sua cabeça parecia opaca e pesada. De longe, assim que o viu, Barcino começou a uivar. Um estremecimento de raiva e impotência apoderou-se de Tomas. Algo tinha que ser feito porque com aquele animal sempre uivando, viver estava virando um inferno. Durante toda a manhã, ele se sentou em uma cama bebendo “tereré” (12). A princípio ele pensou em afogá-lo no lago. Mas de repente rejeitou esse recurso, sentindo-se sem forças para realizá-lo, porque Tomás se angustiava com a ideia de que terminar com Barcino era o mesmo que cumprir aquele desejo tenebroso que tantas vezes sentira de matar Ceferino por afogamento. Por fim, depois de muito meditar, resol­veu livrar-se do cachorro e do tormento de seus uivos, levando-o dali para a Ilha do Vale, perto de Areguá.

No cochilo, amarrou um tucumbó-poí (13) no pescoço de Barcino e saiu com ele. Magro, encovado, branco e sujo Barcino o seguia submissamente, com seu andar ondulado e esguio. Ele tinha a humildade e a feiura de Ceferino. Antes de chegar aos primeiros casebres da Isla Valle, Tomás saiu do caminho e adentrou um matagal emaranhado de mato selvage. Na parte mais funda, amarrou o cachorro a uma árvore. Barcino acompanhava cada movimento seu com um olhar cansado e sem graça, como se fosse outra pessoa e não aquele a quem estavam amarrando. Tomás fez tudo isso com nervosismo, rapidez, com expressão taciturna e sem ousar fitar o cachor­ro na cara. Teve o terrível pressentimento de que se os seus olhos encontrassem o olhar humilde de Barcino, veria, em vez disso, os igualmente humildes de Ceferino. Suas mãos se moviam desajeitadas e trêmulas. Seus joelhos estavam fracos; o pânico, a angústia e um airn as indefinível, uma mistura de angústia e medo, dominavam seu espírito. E isto se tornou tão insuportável que, sem esperar mais, ele fugiu daqueles matagais. Apressado, seus pés de sola áspera afundavam nas areias quentes da airn a.

LEGENDA: (7) Filho do diabo! Novamente, tinha que ser um cachorro. (8) Mentiras puras. (9) Você não consegue ouvir nada? (10) Você não ouve nada? (11) Brandy (12) Bebida de erva-mate e água doce, que é considerada mate. (13) Corda de couro fino. (14) Espadilla.

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