Como é de conhecimento de todos, a pandemia da Covid-19 tem resultado em enormes perdas de vidas humanas e em outras enormes perdas econômicas nas diferentes nações do globo. Do mesmo modo, o surto pandêmico tem emergido e agravado, pesadamente, a saúde mental de muitos cidadãos, sejam estes crianças, jovens, adolescentes, adultos ou idosos.
Neste contexto, para além das implicações econômico-sociais na saúde física, a saúde mental tem sido impactada num crescendo, o que tem sido registrado na literatura científica mundial. Fruto dessa literatura, dados têm sugerido que as pessoas afetadas pela Covid-19 possam ter alta sobrecarga de manifestações associadas à saúde mental, incluin­do depressão, desordens de ansiedade, estresse psicológico, ataques de pânico, agressividade irracional, impulsividade, desordens de somatização, desordens alimentares e de sono, perturbações emocionais, sintomas de estresse pós-traumático e comportamentos suicidas.

Paralelo a essas implicações, vários fatores que lhes são associados vêm sendo encontrados. São eles: idade, sexo, estado civil, educação, ocupação, renda, habitação, proximidade a pessoas com Covid-19, problemas de comorbidade física e mental, exposição às mídias sociais relacionadas à Covid-19, estilos de enfrentamento, estigma, suporte social, comunicação de riscos à saúde, confidência no serviço de saúde, medidas protetivas pessoais, vulnerabilidade de contrair a mesma e a percepção da probabilidade de sobrevivência. Independente da variedade dessas desordens mentais, algumas das mais comuns podem ser agrupadas em três grupos, a saber: 1ª) desordens psicóticas, 2ª) desordens de humor e ânimo e 3ª) desordens de ansiedade.

As desordens psicóticas são caracterizadas por prejuízos signifi­cativos na percepção da realidade, podendo ser classificadas como desordens relacionadas a esquizofrenia, personalidades esquizofrêni­cas, desordens esquizoafetivas, desordens psicóticas breves e desordens desilusivas, entre outras. Algumas dessas desordens podem ser breves, ocorrendo em curto período de tempo, bem como, moderadas, ocorrendo por alguns meses, e mais lon­gas, ocorrendo durante alguns anos. Em todos esses casos, as mesmas também podendo ser exacerbadas pelas próprias intervenções usadas para mitigar a pandemia, tais como, confinamento, distanciamento, lockdown, confusões e incertezas próprias do surto pandêmico.

As desordens de humor e ânimo podem ser muito comuns entre as pessoas durante a pandemia, especialmente naquelas compostas por várias ondas, como as que estamos vivenciando no Brasil e nas demais nações. São caracterizadas por uma combinação de sintomas compreendendo um estado de ânimo predominante de validade e duração anormais. Podem ser classificadas em episódios de alteração de ânimo e em episódios de alteração de humor. As depressões ligadas aos episódios de humor mais severos podem estar associadas a sintomas como estado depressivo ao longo do dia, refletidos por um interesse, e satisfação, diminuídos; significante e não intencional perda de peso, diminuição ou aumento no apetite, insônia por um período de até duas semanas. Por sua vez, um episódio maníaco está associado a alterações de humor anormalmente elevadas, persistentes, expan­sivas e irritáveis, que podem conduzir a uma aumentada atividade autodirigida ou gasto de energia por mais de uma semana. Todas essas desordens também podem estar associadas com falta de apetite, apetite exagerado, insônia ou hiperinsônia, fadiga, baixa auto-estima, pobre concentração e sentimento de desamparo. Em geral, tais desordens depressivas sendo duas vezes mais prevalentes nas mulheres do que nos homens.

As desordens de ansiedade podem resultar em prejuízo ocupacional ou social. A literatura que analisou as desordens de ansiedade resultantes da pandemia da Covid-19 tem apontado as seguintes formas de ansiedade: desordens de pânico, agorafobia, desordens obsessivo-compulsivas, desordens fóbicas, desordens de estresse pós-traumático, desordens relacionadas ao consumo de drogas e de outras substâncias ilícitas, desordens de ansiedade à saúde, desordens de sono, desordens alimentícias e, de forma significativa, o estresse psicológico peritraumático, com variadas manifesta­ções, indo de leve a muito grave.
Importante destacar que análises epidemiológicas de saúde mental, na pandemia da Covid-19, têm revelado uma distri­buição, e de fatores a ela associados, de problemas mentais e de fatores a estes associados de forma heterogênea no público em geral, seja entre os pacientes infectados pelo Coronavírus, seja entre os profissionais de saúde. O consenso tem sido que um contexto psiquiátrico pandêmico está ocorrendo concomitantemente com a pandemia da Covid-19, o qual necessita de atenção da comunidade de saúde global. Em suma, nestes tempos difíceis, Saúde Mental mais que importa: é essencial.