Tal como ocorrido em outros países da América do Sul, a Argentina, devido à pandemia da Covid-19, também se submeteu às restrições obrigatórias da quarentena, no seu caso em dois períodos: de 27 a 31 de março de 2020 e de 08 a 12 de maio de 2020. Considerando o impacto das restrições comportamentais adotadas pelo país, na ocasião, Etchevers, Garay e colaboradores realizaram um estudo, publicado na revista Clinical Psychology in Europe (2021, vol.3, 1), no qual investigaram o estado da saúde mental dos argentinos ao longo dos dois períodos de quarentena mencionados. Para isso, de forma probabilística e estratificada de acordo com as regiões geográficas da Argentina, analisaram 2631 partici­pantes no 1º período e 2068 no segundo, os quais, em geral, variaram de 18 a 60 anos ou mais, sendo a maioria de 30 a 49 anos. Praticamente metade foi de mulheres e metade de homens, com grande parte da população residindo na área metropolitana de Buenos Aires.

A análise consistiu na resposta dos mesmos a um questionário constituído de 27 questões sobre sintomas sentidos pelos participantes ao longo da quarentena. A partir do mesmo, dois índices tendo sido calculados: um índice de severidade global (ISG-27), que é o total dos escores médios dos ítens, e outro, índice de risco de desordem mental (IRDM-14 ou+), que incluía participantes que res­ponderam mais de 50% dos itens, com as opções “bastante” ou “muito”, os quais seriam considerados estarem ou não em risco de desenvolver desordens mentais.

Através de questionários adicionais, comportamentos problemáticos, tais como abuso de álcool, de drogas ilegais e de tabaco, e comportamentos saudáveis, do tipo atividades esportivas e físicas, práticas religiosas e vida sexual, além de outros comportamentos, como uso legal de medicamentos prescritos e prática de meditação e ioga, foram também registrados. Posteriormente, associações com estes comportamentos, e suas mudanças durante a quarentena obrigatória, foram analisados com os indicadores de ISG-27 e IRDM-14 ou +.

Os resultados revelaram: 1º) uma diferença significativa entre os escores de ISG-27 nos dois períodos de quarentena obrigatória, com o segundo período apresentado um escore mais elevado que o primeiro; 2º) uma diferença significativa entre as proporções das suas populações de acordo com o ISG-27; 3º) durante o primeiro período, 4,86% dos participantes estavam em risco de saúde mental, enquanto no segundo período, 7, 2% dos participantes estiveram em risco; 4º) também em relação ao ISG-27, este indicador mostrou, em ambos os período, maior ocorrência de ideações suicidas do que indivíduos sem os mesmos. Importan­te destacar também que, no segundo período, o escore foi maior em decorrência de os parti­cipantes se encontrarem no final da quarentena. Por adição, o primeiro período mostrou que 73,7% da amostra tiveram problemas relacionados ao sono, ao passo que, no segundo perío­do, 76,06% da amostra registraram desordens referentes ao sono. Já em relação à vida sexual, 43,97% no primeiro período e 44,39% no segundo período registraram insatisfação sexual.

Acerca dos comportamentos problemáticos e saudáveis, baixos escores de ISG-27 foram encontrados em indivíduos de ambos os períodos que praticaram atividade física. De modo similar, baixos escores de ISG-27 foram encontrados nos praticantes de meditação no primei­ro período, bem como, baixo escore no índice de risco em saúde mental com os praticantes de ioga. Todavia, a prática religiosa não mostrou alteração em nenhum dos períodos. Os usuários de drogas registraram escores de ISG mais elevados em ambos os períodos, ao passo que, os fumantes mostraram escores mais elevados do ISG-27 no primeiro período. Consumo de bebida alcoólica foi registrado em 37, 51% dos participantes no primeiro período e 41, 15% no segundo período. Quase 30% dos participantes de ambos os períodos referiram que o consumo de álcool aumentou na ocasião. Medicamentos com prescrição foram usados por aproximadamente 33% dos participantes em ambos os perí­odos, com a maioria fazendo uso dos mesmos para enfrentar sintomas relacionados à ansiedade, nervosismo, relaxamento e sono. Finalmente, considerando os cuidados de saúde men­tal, no segundo período 14,02% dos participantes estavam em tratamento psicológico e 37,55 % dos respondentes, que não estavam recebendo cuidados de saúde mental, consideraram que eles necessitavam de tais tratamentos, mas apontaram dificuldade no acesso aos mesmos.

Em conjunto, o estudo mostrou que os sintomas psicológicos e o risco de experenciar desordens mentais aumentaram significativamente do primeiro para o segundo período, ao longo da pandemia, sugerindo que a quarentena pode ter provocado mudanças nas intera­ções entre os sintomas. Logo, acesso à assistência de saúde mental é crucial para minimizar o impacto psicológico da quarentena.