José Aparecido Da Silva* 

 

Dados iniciais publicados por pesquisadores chineses ao longo da primeira onda da pandemia de Covid-19 sugerem que, na China, mais de 25% da população em geral experenciou níveis de estresse e sintomas relacionados à ansiedade em resposta à Covid-19. Pessoas com pouca ansiedade sobre um surto viral são pouco prováveis de se engajarem em comportamentos higiênicos como lavar as mãos, bem como, menos prováveis de aderirem às medidas de distanciamento físico e de se vacinarem se uma vacina estiver disponível. De fato, é o que tem sido estar ocorrendo no mundo. Por outro lado, pessoas com ansiedade excessiva são mais prováveis de se engajarem a comportamentos inapropriados, como, por exemplo, consumo motivado pelo pânico e busca desnecessária por medicamentos e atendimentos a serviços de saúde, sobrecarregando estes últimos. 

Dado que a ansiedade desempenha um papel fundamental em modelar as respostas comportamentais aos surtos virais, ou seja, em contextos em que comportamentos podem tanto mitigar quanto exacerbar a propagação da infecção, é a mesma um elemento crítico a ser considerado pelas autoridades sanitárias e profissionais de saúde, os quais devem entender a natureza e o grau das respostas psicológicas adversas que emergem durante crises pandêmicas de natureza similar à atual, especialmente agravada no estágio de 2ª onda que ora grassa, severamente, o Brasil e outros. 

Pesquisas e observações clínicas relacionadas à pandemia, especialmente as realizadas por Steven Taylor (Journal of Anxiety Desorders, 2021 e publicações similares) sugerem que, durante tempos pandêmicos, muitas pessoas exibem medo e estresse relacionado à ansiedade, do tipo (1) medo de tornar-se infectado, (2) medo de entrar em contato com possíveis objetos ou superfícies contaminadas, e (3) medo de estranhos que podem estar infectados. Comportamentos, estes, extremamente relacionados à xenofobia. Também, (4) medo das consequências socioeconômicas na pandemia, do tipo perda do emprego; (5) checagem compulsiva e busca contínua para assegurar possíveis ameaças relacionadas à pandemia; e (6) sintomas de estresse traumático acerca da pandemia (pesadelos, insônia, falta de apetite e pensamentos intrusivos). 

Considerando que o estresse e variadas reações psicológicas provocadas pela Covid-19 não podem ser meramente simplificadas pelo construto de medo, tampouco ser considerada apenas uma monofobia, Taylor e colaboradores desenvolveram Escalas de Estresse à Covid-19, nelas englobando uma rede multifacetada de sintomas interconectados, por ele denominada como Síndrome de Estresse à Covid-19. Esta hipótese foi baseada em um estudo cujas escalas foram inicialmente validadas em amostras representativas da população do Canadá (n=3479) e dos Estados Unidos (n=3375), sendo suas Escalas de Estresse intencionalmente designadas, de modo que pudessem ser prontamente utilizadas em pandemias futuras. 

Estruturalmente, essa escala foi composta por 36 itens que capturavam as facetas da ansiedade acima mencionadas (1 a 6). Em adição, também mensurou indicadores demográficos, níveis de ansiedade e depressão atuais e várias outras características individuais dos respondentes, todos relacionados à Covid-19. Os dados revelaram que a fidedignidade e validade da mesma foram elevados e intercorrelacionados, evidenciando em todas as escalas um fator em comum, que forneceu evidências da Síndrome de Estresse à Covid-19. Na sequência, verificou-se que a preocupação com a severidade da Covid-19 é uma dimensão central dessa Síndrome, indicando que a mesma é quase-dimensional, compreendendo cinco classes diferindo na severidade da Síndrome. Esta severidade tendo sido correlacionada com psicopatologias preexistentes e com excessivo comportamento de evitação relacionado à Covid-19, bem como, com compras baseadas em pânico e com dificuldades de enfrentamento durante o autoisolamento. 

As escalas de estresse à Covid-19, portanto, oferecem ferramentas promissoras para se melhor entender o Estresse associado à pandemia da Covid-19, podendo identificar pessoas que mais necessitam dos serviços de apoio à saúde mental. Também, podendo ser utilizadas em estudos que buscam prever quais pessoas são mais prováveis de se engajar em comportamentos preventivos. Um exemplo? É uma escala que pode ser usada para investigar quais pessoas são amis prováveis de se engajarem em comportamentos higiênicos, distanciamento social e adesão às vacinas disponíveis. 

Professor Sênior da USP-RP*