Diversos estudos realizados com populações de diferentes países têm indicado que as medidas restri­tivas para manejo da COVID-19, particularmente aquelas envolvendo isolamento social e confinamento total, podem afetar negativamente a saúde psicológica das pessoas. Neles, entende-se que as pessoas nes­sas condições são mais prováveis de exibir sintomas de desordens psicológicas do tipo ansiedade, raiva, distúrbios de sono, depressão e desordens de natureza pós-traumática. De forma análoga, nas implica­ções psicológicas decorrentes do fechamento das escolas, e da mudança significativa da rotina diária, a quarentena pode ter consequências não só para os adultos mas também para as crianças ausentes das escolas, estas últimas, usualmente, servindo como suporte social coletivo.

Não obstante, é conhecido da literatura que vários fatores pessoais e impessoais, como idade, per­sonalidade, nível evolutivo, habilidades cognitivas e emocionais, estratégias de enfrentamento e resiliência, podem influenciar tanto as reações das crianças aos eventos traumáticos, bem como, afetar as respostas dos pais, e restante da família, para contornar e mitigar os efeitos psicológicos da pandemia. Considerando esse contexto, Cusinato et al publicaram um estudo na International Journal of Inviromental Research and Public Health (2020, 17, 8297), no qual investigaram o bem-estar subjetivo das crianças e dos pais, o estresse parental e a resiliência das crianças durante a pandemia da Covid-19, particularmente durante a quarentena na Itália. Esse estudo envolveu 463 pais de crianças italianas (5-17 anos), que completaram questionários de bem-estar psicológico geral que objetivavam avaliar o bem-es­tar parental, bem como, de potencialidades e dificuldades visando mensurar o bem-estar das crianças, uma escala de estresse parental e uma medida e de resiliência das crianças e dos adolescentes.

Entre os pais, 17,3% tinham uma ou mais crianças abaixo de cin­co anos de idade, 9,6% registraram que, ao menos, uma criança tinha sofrido ou sofria de uma doença psicológica médica ou genética, e 19,2% declararam que elas sofriam, ou tinham sofrido, de uma con­dição clínica relacionada a uma dessas doenças. Importante destacar que, ao longo do estudo, a duração média do confinamento foi 50,6 dias. Em relação às modificações da rotina, 63,9% dos pais haviam mudado suas condições de trabalho, sendo que, 45,2% trabalhavam em casa, 27,6% estavam desempregados ou foram demitidos, 21,2% tiveram interrupção temporária de seu trabalho e 6% trabalhavam parcialmente. Para as crianças, 94,6% delas continuaram suas atividades escolares em casa. Interessante o bastante é que as horas que os pais dedicaram às suas crianças aumentaram de uma média de 6,75 antes da quarentena para 14,5 pós-pandemia. Também, 5,2% dos pais tiveram que ficar distantes das suas crianças durante o confinamento total devido às razões de saúde, 6,7% registraram, pelo menos, um caso confirmado de Covid-19 em suas família e 7,2% perderam um ou mais parentes para o vírus.

Em relação aos dados obtidos pelos diferentes questionários, os resultados mostraram que as me­didas de confinamento e as mudanças na rotina afetaram negativamente as dimensões psicológicas dos pais e, por consequência, expuseram as crianças a um risco significativo ao seu bem-estar. Os resultados também sugeriram alguns fatores de risco para um mau ajustamento psicológico, tais como, o estresse parental, baixos níveis de resiliência nas crianças, mudanças nas condições de trabalho e problemas parentais psicológicos físicos ou genéticos.

Outro aspecto importante registrado foi a hiperatividade das crianças ao longo do confinamento total quando comparado com a população normal. Isso pareceu aos autores do estudo ser uma reação comum devido a períodos de confinamento, emergida como tendência para as crianças expressarem suas emoções negativas através de comportamentos agressivos, algumas vezes desenvolvendo sintomas externalizados mais do que qualquer desordem de estresse pós-traumático. Em relação ao bem-estar das crianças, constatou-se uma associação negativa entre sintomas psicopatológicos das mesmas e resiliência. Em outras palavras, as crianças que se motivavam a si próprias, a despeito das condições adversas, adaptando-se às restrições impostas e ao distanciamento social, podem mitigar o impacto negativo desses aspectos para manter em equilíbrio seu próprio bem-estar–subjetivo.

Tomados em conjunto esses fatores, as mudanças na rotina diária que ocorreram ao longo da pande­mia na Itália afetam, negativamente, as dimensões psicológicas dos pais, expondo as crianças a um fator de risco significativo para seu bem-estar. Assim considerando, os autores recomendam que os governos foquem atenção às necessidades das famílias com crianças, planejando programas e intervenções pós­-pandêmicas para estas possam mitigar as implicações de saúde e econômicas destacadamente provoca­das pela COVID-19.