COVID-19: Quando e como reabrir as escolas (7)

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Além da tarefa crucial de educar as crianças, as escolas têm múltiplas outras funções nas comunidades. Muitas famílias, por conta de horá­rios de trabalho e afins, deixam suas crianças para serem cuidadas nas escolas em períodos que não os regulares, tais como antes e depois das aulas das crianças. Por sua vez, algumas escolas também fornecem as merendas, os cuidados com a saúde, aconselhamento e acesso a serviços sociais (recomendações de emprego, treinamento, especialistas etc), além de servirem como centros de recreação, social e esportivo, ou seja, um lugar no qual estudantes e pais podem participar de eventos e as relações entre seus membros são construídas ou solidificadas, ou locais de trabalho (pais professores ou outros funcionários). Com o fechamento das escolas, enquanto consequ­ência da pandemia da Covid-19, o acesso a muitas dessas funções foi perdido, o que levou as comunidades a enfrentarem dificuldades em melhor equilibrar os riscos de saúde pública, envolvidos na abertura das mesmas, e a operacionalização das escolas contra as consequências para seus frequentadores.

Neste mesmo contexto, as escolas, além da tarefa de ensinar conteúdo disciplinado (leitura, matemá­tica, escrita e ciência), também propiciam espaço para o desenvolvimento crítico de habilidades socio­emocionais de seus estudantes. Obviamente, as escolas não se constituem como únicos lugares para os estudantes desenvolverem tais habilidades, mas, de fato, são elas a grande avenida para que as crianças interajam umas com as outras e com outros adultos que não os de suas famílias. Essas interações nas escolas fornecem importantes oportunidades tanto para as crianças quanto para os jovens desenvolve­rem auto regulação, habilidades essenciais para a vida e interesses e identidades. Essas interações com o ensino do conteúdo disciplinar asseguram que as crianças tenham, em seu ambiente escolástico, segu­rança física, saúde afetiva e cognitiva e bem estar e satisfação de suas necessidades nutricionais.

Com a pandemia da Covid-19, houve a necessidade de se fechar milhares de escolas em quase 200 países no mundo. Algumas, então, adotaram atividades online, enquanto outras, sistemas híbridos. Por adição, outras, com menos recursos, e menos preparadas, fecharam suas portas por quase um ano. Algu­mas poucas até tentaram voltar, mas, imediatamente, se depararam com a segunda onda do Coronavírus, a qual, em algumas regiões, foi mais devastadora que a primeira. Assim considerando, alguns estudiosos entenderam ser importante determinar o status da saúde mental entre crianças e adolescentes em idade escolar durante esta atípica crise de saúde pública pandêmica e os fatores de risco associados com o estresse psicológico durante a mesma.

Um estudo publicado na JAMA Network Open apresentou a análise de auto-registros de estresse psicológico ocorrido entre crianças e adultos na China. Nela, ao longo do período de 8 a 30 de março de 2020, cerca de 1.310.600 estudantes completaram um questionário composto por uma escala de saúde geral de 12 itens, cujo escore ≥ 3 indicava a magnitude do estresse psicológico. Do total geral dos estudantes que responderam o questionário, 126.355 (10,5%) disseram que tinham estresse psicológico por causa da pandemia, 51,5% desses estudantes sendo mulheres. Por adição, nas séries finais do ensino médio, 20% deles tiveram risco mais elevado para registrarem bem-estar subjetivo mais pobre do que o equivalente dos estudantes das escolas fundamentais.

Outros dados interessantes nesse mesmo estudo referem-se ao uso das máscaras e à prática de exercícios físicos e sua relação com o estresse psicológico. Nessa direção, os dados mostraram que, estudantes que re­gistraram praticar menos que meia hora, por dia, de exercício físico tiveram um risco mais elevado de estres­se psicológico do que aqueles que registraram serem ativos ao menos uma hora por dia. Do mesmo modo, estudantes que disseram nunca usar uma máscara protetora em público, revelaram risco mais elevado para estresse psicológico do que aqueles que indicaram usar máscara frequentemente. Os autores assim afirmam “Estudantes que usam máscara frequentemente sentem-se menos prováveis de contrais a Covid-19, fato que poderia reduzir o nível de ansiedade e preocupação e promover o bem estar mental dos mesmos”.

Por adição, os autores constataram, após análise ponderada, que as variáveis sociodemográficas de idade, status socioeconômico, série escolar e localização da residência foram também associadas signifi­cativamente ao estresse psicológico. Comparado com estudantes de alto status sociodemográfico, aqueles com baixo ou mediano status sociodemográfico foram mais prováveis de registrar um pobre bem-estar psicológico. De modo similar, comparados com estudantes de baixo risco para Covid-19, aqueles viven­do em áreas de alto risco para infecção foram mais prováveis de registrar estresse psicológico. Compara­dos com crianças e adolescentes, aqueles que tinham mais que 5 fontes de informação sobre a Covid-19, os que tinham apenas de 1 a 5 fontes, tiveram níveis mais elevados de angústia.

Tomados em conjunto, os dados desse estudo revelam existir altos níveis de ansiedade em crianças e adolescentes durante a crise de saúde pública e o isolamento social provocados pelo Coronavírus. Impor­ta destacar que muitos outros aspectos relacionados à pandemia podem causar e exacerbar o estresse psi­cológico, incluindo o confinamento doméstico, a falta de espaço pessoal na residência, medo de infecção, falta de informação, incerteza sobre os exames vestibulares e a matrícula nas universidades, falta de aces­so às plataformas de aprendizagem online, medo de ficar para trás no desempenho acadêmico e perda da renda familiar. Assim, é necessário que, durante a pandemia da Covid-19, governos, municípios, escolas e família prestem atenção à saúde mental das crianças e adolescentes na idade escolar, considerando intervenções apropriadas para reduzir o impacto da mesma sobre a saúde mental de ambos.