Cuidado com bola dividida

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Luiz Airão compôs para Roberto Carlos “Nossa canção” e “Ciúme de você”. Também é dele a música “Os amantes”. O cara ainda é autor de “Renda negra”, na qual a letra diz que de tudo que a mulher amada deixou ao partir, a que mais lhe dá saudades é um “pedacinho assim de renda negra”, referindo-se a calcinha com perfume de jasmim…

Eu animava as noites no Restaurante Ponto Chic cantando essa música, e ao chegar na parte que citei acima, mudava a letra proposital­mente e até o trecho do perfume deste pedacinho de renda negra (rsrs). Airão compôs também “Bola dividida”, um samba cheio de cadência, delicioso de cantar, uma viagem na história ou estória. Muitas vezes, ao cantá-la, ia vivendo a letra e imaginando a situação pela qual Luiz Airão passou ou que alguém contou a ele para que este samba pudesse nascer.

A noite nos conta histórias pra dedéu. Cantei por 16 anos no Res­taurante Ponto Chic, que ficava na avenida Antonio e Maria Zerrener, na esquina com a rua Amapá. Ali, sempre acontecia algo marcante. Sócrates sempre repetia: “Buenão, guarde esta lembrança porque o que aconteceu hoje nunca mais se repetirá”. E ele tinha razão. Veja essa.

Nessa época, faz mais de 23 anos, recebi a visita dos amigos Wal­demar e Luzia, de São Paulo. Ele, sósia perfeito do saudoso compositor João de Barro, o Braguinha, autor da letra de “Carinhoso”, cuja música é de Pixinguinha. Waldemar, em Sampa, é conhecido por Braguinha por ser idêntico ao letrista. Orgulhoso, tirava a maior onda.

Fui cantar e levamos o casal. Quando chegamos ao Ponto Chic, já ocupava uma das mesas o casal Dr. Mozart e Vera Figueiredo com seus padrinhos, o saudoso ator Marcos Plonka e esposa. Na Escolinha do Pro­fessor Raimundo, fazia o papel do Samuel Blaustein, um judeu pão duro pra caramba. Depois chegou Sócrates com jornalistas do Rio de Janeiro.

Também chegou meu amigo Aguilar, este um sósia de Dorival Caymmi, que além de parecer fisicamente ainda canta como o velho compositor. Magrão sentou numa mesa colada a de outro amigo, o sessentão Benelli, diretor de uma empresa de ônibus.

Sócrates até brincou: “Buenão, numa noite só, aqui no Ponto Chic, Dorival Caymmi, Braguinha e Marcos Plonka”. Os jornalistas fizeram fotos, foi uma festa. Aí, o Benelli, brincando, disse: “Faltou você dizer ‘Sócrates’”. Magrão riu com timidez.

A noite seguiu, cantei o que gostava de cantar, Magrão cantou músicas do Fagner, Aguilar desfilou o repertório de Caymmi, enfim, nem vimos o tempo passar. Lá pelas tantas, Benelli, ao se despedir, me disse: “Buenão, se eu contar ninguém vai acreditar que eu estive com Marcos Plonka, Sócrates, Dorival Caymmi e Braguinha”. Emocionado, completou: “Graças a você, obrigado meu amigo”. Na despeddia fiquei meio que sem o que comentar, preferi então que ele levasse a felicidade da ilusão que viveu. Uma noite como esta nunca mais aconteceu.

Vamos à músicas “Bola dividida”. Meu parceiro também adorava cantá-la. Certa noite, Ponto Chic lotado, ele me pediu: “Buenão, me dê um Lá menor”. Dei o tom e ele entrou cheio de graça: “Será que essa gente percebeu, que essa morena desse amigo meu, tá me dando bola tão descontraída, só que eu não vou em bola dividida”.

No intervalo, ao passar pelo corredor, um cara que jantava com sua esposa, pediu-me para sentar em sua mesa e foi logo dizendo. “Buenão, sempre que a gente vem aqui seu amigo canta ‘Bola dividida’, to descon­fiado que ele canta pra minha mulher”

E olha que ela era como Airão escreveu. “uma morena sensacional”. No fim, rima com “eu não quero ser manchete de jornal”. Fiquei sem graça, ela também, disse a ele que meu parceiro era evangélico e que ele não cantaria mais este samba. Voltando ao palco, disse pro figura: “Tá vendo aquele casal da mesa 36?” Ele disse sim e aí eu fechei: “Quando eles estiverem aqui, nunca mais cante ‘Bola dividida’ se não quiser virar ‘manchete de jornal’”.

Sexta conto mais.

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