Curadora comenta homenagem para Elizabeth Bishop na Flip

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Por Guilherme Sobota

A escolha de Elizabeth Bishop como autora homenageada da 18ª Festa Literária Internacional de Paraty gerou revolta nas redes sociais, com escritores, leitores e críticos definindo a decisão como “insultuosa”, “politicamente melancólica” e “lamentável”. Houve também manifestações a favor do nome da escritora americana.

O principal motivo das críticas foi o apoio, mesmo que lateral, de Bishop ao golpe militar de 1964, em abril daquele ano. Em cartas ao colega Robert Lowell, Bishop – que vivia no Brasil há cerca de 10 anos na ocasião – disse que o evento “foi uma revolução rápida e bonita” e que “a suspensão dos direitos, a cassação de boa parte do Congresso etc., isso tinha de ser feito por mais sinistro que pareça”.

A curadora Fernanda Diamant respondeu a algumas perguntas do jornal O Estado de S. Paulo, por e-mail, via assessoria de imprensa:

O anúncio de Bishop como homenageada da Flip 2020 teve uma forte reação nas redes sociais principalmente pelo apoio (mesmo que lateral) da escritora ao golpe militar de 1964. A Flip e a curadoria levaram isso em conta antes de selecionar a autora?

A Flip, em especial a curadoria, levou em conta os pontos sensíveis dessa escolha – o fato de Bishop ser estrangeira e ter feito elogios ao golpe de 64 em cartas enviadas a amigos na ocasião – e considerou que eles não seriam impeditivos, mas que certamente seriam alvo de críticas e reprovações. Decidimos enfrentar o desafio porque acreditamos que as contribuições da autora para a literatura, que incluem a divulgação internacional da literatura brasileira, têm a dimensão necessária para que ela seja homenageada. Ainda assim, sabemos que as outras questões precisam ser debatidas de forma crítica. O mesmo aconteceu com Euclides da Cunha.

Como é que a curadoria analisa a ligação de Bishop com a política? Porque pelo que entendo, a obra em si dela é pouco afeita às discussões políticas.

Há muito conteúdo social nos poemas dela, basta ler A cadela rosada ou O ladrão da Babilônia. A relação dela com a política era doméstica, eram comentários em cartas, no máximo algumas observações na introdução da antologia de poesia brasileira. Ela nunca se posicionou publicamente nem serviu ao governo.

Na opinião de vocês, a Flip pode/deve usar seus espaços (o da escolha de um homenageado/a, por exemplo) para se posicionar politicamente?

Tivemos e temos autoras e autores homenageados e convidados de diversos posicionamentos políticos. O importante, na minha opinião, é estimular o debate político, fazer leituras críticas de obras, resgatar autores e reunir as pessoas em torno da literatura. A Flip é a favor da liberdade de expressão, da cultura, da educação, da ciência e da diversidade, – isso é tomar posição política, especialmente no momento atual.

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