A Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid, instalada no Senado Federal do Brasil se ocupa de capturar a verdade documental e testemunhal e indiciária da condução irresponsável do governo federal no agravamento da crise sanitária do país, cujo volume de mortes, há muito está atraindo para si um conceito jurídico assombroso, que é o do genocídio.

Talvez, a incúria do governo central, que recusou por seis (6) vezes a oferta do laboratório Pfizer, tenha desenvolvido a maior frente de trabalho, que ele conseguiu incentivar, qual seja a dos coveiros, somada à próspera indústria dos caixões funerários.

Eis a imagem fúnebre, ajudada pelo presidente Bolsonaro, cuja atitude não é de se estranhar, porque o sentido da morte com ele supera o da vida, e não só pelas armas do povo, pois até como deputado, já se revelara cultivador e defensor da tortura, reverenciando o governo militar, do qual ele destaca, até como herói, o seu torturador-mor. E a tortura é aquele método que apodrece o torturador e humilha o torturado, como vestibular da morte matada.

O presidente obteve, ainda assim, o apoio de seus adeptos ou apaniguados, que seguramente não leram, ao menos, os livros didáticos de Élio Gaspari, 1. A ditadura Envergonhada, 2. A ditadura Escancarada, 3. A ditadura Derrotada, 4. A ditadura en­curralada. 5. A ditadura Acabada. Para não dizer que a ignorância da verdade históri­ca dispõe, para se revogar, de centenas de outros livros, inclusive os volumes do Brasil, nunca mais. Mesmo assim, leu-se e se lê o absurdo do discurso atual, endossado por decisão do Poder Judiciário, segundo a qual a ditatura é uma etapa da democracia.

Nesse ambiente de crise político-institucional estimulado diariamente pelo Presi­dente da República, vive-se a tragédia da crise sanitária, e diante dela a incompetência auto-reconhecida pelo próprio governo, porque só culpa os outros, sem saber de seus deveres constitucionais, até concorrentes com Estados e Municípios. Foi preciso o Supremo Tribunal dizê-lo. E tanto o Presidente abusou que os demais Poderes, Legislativo e Judiciário, definiram a existência da Comissão Parlamentar de Inquérito, como direito da minoria parlamentar que o presidente do Senado Federal postergava e o Supremo Tribunal Federal determinou que desse seguimento ao requerimento de sua instalação e consequente funcionamento.

Ganha relevo primeiramente o testemunho, desastrado e mentiroso do ex – Secretário de Comunicação do Palácio do Planalto, Fábio Wajngarten, que semanas antes dera uma entrevista à revista Veja. Tal entrevista acabou por desacreditar de vez o ex-secretário, que procurou contradizê-la, no entanto, o áudio da entrevista foi ouvido ali, na hora, como também exibidas as publicações oficiais feitas, à época, pela SECON-Secretária de Comunicações, que ele dirigia.

Apesar disso, esse fato não pode ser considerado o auge do dia, já que isso nem coube ao pedido de prisão, em si, que foi requerida pelo Relator, e secundado por senador do Espírito Santo, professor de direito, delegado de policia durante vinte e cinco anos que, indignado, justificava com a lei e os documentos a prisão do mentiro­so que estava depondo.

Evidentemente que ele poderia sair preso, se o presidente da Comissão a decre­tasse. Mas o auge do dia foi alcançado pela decisão dada a esse pedido, apesar de que havia motivo abundante para ser decretada.

Entretanto, a prisão não foi decretada, conferindo-se à altiva decisão a consagra­ção do dia : -“Eu não sou carcereiro de ninguém”, dizia o Presidente da Comissão. E olhando para o depoente prosseguia: sabe que há desdobramento dessa Comissão, que o senhor poderá ser processado, com base em recomendação do relatório final, mas mais grave do que a prisão é a perda da credibilidade que seu depoimento menti­roso lhe angariou. Qual será a consequência de sua atuação lá na escola de seus filhos?

Essa atitude do Presidente, Omar Aziz, equilibrada e prudente, carente no Brasil governamental de hoje, e que foi apoiada pelo próprio Relator, deu a densidade do respeito parlamentar, desestimulou qualquer cisão, fortaleceu sua autoridade, e se contrapõe à onda daqueles fanáticos que querem desacreditar o trabalho da Comissão, para a qual interessa a verdade, somente a verdade. Afinal, a gripezinha presidencial será um sucesso, logo chegando a quinhentos mil mortos.

Agora, estimular o bando para gritar na rua -Abaixo a verdade da Comissão, vivam nossas mentiras?-, não é suficiente para fazer o vinho tornar-se milagrosamente água.