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Diáspora iraquiana e os dramas dos refugiados

Por Luiz Carlos Merten, especial para o Estadão

O cineasta Samir conversa com o Estadão diretamente de Amã, na Jordânia. “Estou aqui como jurado do Festival Internacional que, apesar do nome, só tem produções do mundo árabe.” Avisa: “A internet não é segura e pode cair a qualquer momento”. Por sorte, a ligação não é interrompida e ele pode falar sobre seu longa Bagdá Vive em Mim, em cartaz nos cinemas brasileiros. Rememora sua carreira como documentarista. Embora seja uma ficção, e baseado numa história real, a pegada, para ele, não difere de seus documentários.

Iraquianos exilados em Londres. O casal de velhos comunistas possui um café. A mulher que era arquiteta no Iraque virou garçonete. Envolve-se com o engenheiro cuja obra acompanha todo dia, a caminho do trabalho. Ela conta ao tio – todo mundo tem relações de parentesco – sobre esse inglês romântico. O tio, que trabalha como segurança num museu, pergunta se nenhum iraquiano é bom o suficiente para ela? Sua resposta: “Por que isso? A liberdade de escolha é só para vocês, homens?”.

As tramas ainda envolvem um par gay, o jovem que frequenta a mesquita e o ex-marido da garçonete, que pertencia à segurança do antigo regime – o Partido Baath, na era Saddam Hussein, que subiu ao poder com apoio norte-americano – e agora é adido cultural. É um canalha vira-casaca. Vai fazer de tudo para prejudicar a ex-mulher, até porque permanecem casados e ela está usando outro nome, mas, pior do que tudo, vai tecer uma intriga unindo o imã, o gay e o jovem que está prestes a se converter num mártir do Islã. Todos esses personagens têm o pé na realidade. “Inspirei-me em meus pais, em meus tios. Meu pai conhecia o Corão muito mais do que qualquer outra pessoa. Não acreditava, mas sabia tudo. E quando lhe perguntava ‘Por quê?’, respondia que era preciso. Não se pode ser contra o que não se conhece só por preconceito.”

A fundamentação teórica sempre fez parte da vida de Samir. “Meu pai tinha sede de conhecimento e nos transmitiu isso.” Montar o elenco foi tão difícil quanto conseguir financiamento para o projeto. “A atriz que faz a garçonete, Zahraa Ghandour, é muito conhecida no Iraque. Nas cenas que filmamos com a comunidade baathista de Londres todo mundo queria fazer selfies com ela. Até hoje, o filme de 2018 não estreou no Iraque. Tive de prometer-lhe que faria uma versão especial para lá. Ela é feminista convicta, mas muita coisa que diz e faz no filme não seria tolerada pelos fundamentalistas. O gay foi outro problema. Um ator que faz esse papel pode sofrer perseguição. Felizmente encontrei um inglês de ascendência iraquiana.”

Embora radicado na Suíça, Samir optou por situar a ação em Londres, mesmo tendo filmado partes na Alemanha. “Os iraquianos que emigraram para a Suíça eram predominantemente curdos. Os árabes preferiram formar comunidades em Londres e Berlim, que foram mais receptivas às nossas tradições.” Já que está, atualmente, num festival, Samir conta que tentou inscrever Bagdá Vive em Mim em vários eventos de cinema do mundo árabe. Só ouviu recusas, de nada adiantando ele prometer que estava disposto a fazer cortes, numa montagem mais palatável, só para poder exibir o filme e provocar discussões que considera necessárias sobre a diáspora iraquiana.

Um amigo, que é curador do Festival do Cairo, lhe lançou um balde de água fria. “Me fez ver que o problema não era a feminista, nem o gay, nem os velhos comunistas. O imã envolve-se numa trama de pornografia e isso é intolerável. O fundamentalismo religioso jamais aceitaria uma coisa dessas.” É a hora de falar da situação no Afeganistão, com a volta do Taleban. “São extremistas e todo mundo agora tem medo.” Samir reflete sobre a guerra religiosa em curso no mundo.

O islamismo radical, o fundamentalismo. “Vocês (brasileiros) não estão livres dessa. A guerra religiosa já está instalada em seu país. Ainda não chegou ao extremo, mas com esse presidente de vocês (Jair Bolsonaro) fazendo a apologia das armas é só uma questão de tempo.”

Para ele, as grandes vítimas desse movimento universal são as mulheres. “O que os fundamentalistas querem é calá-las, fazê-las regredir em relação a direitos adquiridos.” Uma derradeira curiosidade – por que esse nome, Samir, sem sobrenome? “É um nome pré-islâmico. Meu pai deu nomes assim a todos os filhos e filhas. Foi uma declaração de princípio não religiosa.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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