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7 de julho de 2022 | 14:15
Jornal Tribuna Ribeirão

Dr. Siqueira e Gonzaguinha: e a vida, é bonita?

Estava escrevendo sobre Gonzaguinha quando chegou a notícia da partida do querido amigo delegado Sérgio Siqueira. Decidi fazer um bem bolado sobre os dois. Faz alguns anos, criei um projeto de a cada três meses cantar a obra de um grande cantor brasileiro. O primeiro foi João Nogueira, a resposta foi maravilhosa e isso me deu gás para os próximos.

Mandei ver a obra do meu amigo Fagner, depois Roberto Carlos, Toquinho e Vinicius de Moraes. Vi que o projeto havia pegado rosca, até porque, amigos passaram a pedir que eu interpretasse cantores que quase não cantava, como Gonzaguinha, sugerido por um músico. Dele eu cantava na noite apenas cinco músicas, teria que aprender mais 18 para que o show ficasse encorpado.

Gravei uma fita K7 e dá-lhe Gonzaguinha o dia todo. De todas as canções do repertório do show, tinha certa dificuldade com “Sangrando”. Ela exige muita concentração e você tem que procurar viajar pra dentro da alma do compositor, imaginando o que sentia quando escreveu a letra e melodia.

Eu cantava no Restaurante Ponto Chic, onde doutor Sérgio Siqueira e esposa costumavam jantar. Eu sabia quais eram suas músicas preferi­das e cantava com prazer. A pedido dele eu soltava o gogó no samba de Luiz Airão, “Renda negra”, cuja letra diz que a mulher foi embora, mas esqueceu uma pecinha de renda negra, com perfume de jasmim…

Do Benito de Paula, ele gostava do samba “Meto o pé na porta”. Do Gonzaguinha ele gostava do samba “Com a perna no mundo”, muitas vezes ele subia no nosso pequeno palco e cantava comigo. Certa noite lhe perguntei por que ele gostava tanto dessa música e sua resposta foi: “Buenão, analise a letra, nela Gonzaguinha conta sua saída de casa pra enfrentar o mundo”.

Fui pesquisar a história de Gonzaguinha e descobri que seu pai, Gonzagão, se apaixonou por uma moça que deu Gonzaguinha, mas que uma séria doença a levou, daí o rei do baião levou o filho pra ser criado por “Dina”, uma amiga no Morro de São Carlos.

Gonzagão viajava muito Brasil afora e como morria de medo de avião, o negócio era pegar o estradão. Seu filho estudou em boas escolas, tendo ótima formação cultural. Na adolescência, Gonzaguinha levou um corretivo do pai porque andava com jovens que não eram boa companhia. Isso abalou o relacionamento deles e a paz só veio a reinar quando o filho ficou famoso, até se juntaram pra fazer uma turnê.

Quando fiz o show cantando Gonzaguinha, Dr. Siqueira estava presente e vibrou quando cantei “Com a perna no mundo”, foi um grande show. Eu apresentava o Programa Canta Ribeirão pela nossa querida TV Thathi. Por sugestão do Sócrates, produzimos um pro­grama em homenagem a João Nogueira, fui vestido de sambista, ca­misa listrada e chapéu Panamá. Dias depois cruzei com Dr. Siqueira no Clube de Regatas e ele disse: “Buenão, sua imagem de chapéu na TV ficou excelente, se eu fosse você, usaria sempre”. Resultado, peguei gosto por chapéus e não deixei mais de usá-los.

Fazia a divulgação do meu show “Bueno canta Gonzaguinha”, e quando colava um cartaz num bar, um amigo vendo comentou: “Buenão, escute essa: era noite escura e eu estava viajando por uma estrada do Estado do Paraná quando dei de cara com um grave acidente, como estava sozinho no meu Fiat Uno, me pediram para socorrer um acidentado”.

E continuou: “Afastei o banco do passageiro até o fim, colocamos o ferido quase deitado e voei até a próxima cidade. No hospital, uma equipe já estava esperando, fiquei por ali pra saber se o acidentado havia se salvado, depois de algum tempo o médico saiu lá fora e me disse que fizeram o possível, mas não deu. Em seguida, perguntou: ‘Sabe quem você socorreu?’ Eu disse que não e ele fechou: ‘Você trouxe o Gonzaguinha’.”

Gonzaguinha e Dr. Siqueira, a vida, é bonita, é bonita e é bonita.

Sexta conto mais.

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