Foto: SMCS/Divulgação
Por João Luiz Sampaio, especial para o Estadão

O século é o 17; o local, a França; a corte, a do rei Luís XIII. Está pronto o cenário do novo disco da soprano Marília Vargas, Nossos Espíritos Livres. É uma viagem à música do passado… Passado? Não exatamente, interrompe a cantora lírica, especializada na música antiga.

“A gente tem uma tendência a romantizar o passado. A vida então era muito dura, a gente não pode esquecer”, ela diz. “A pesquisa da época é importantíssima, não há dúvida. Mas o que me interessa em especial é entender aqueles afetos como algo que não pertence apenas àquela época, mas também à nossa, ao nosso tempo.”

Na música barroca, o termo “afeto” refere-se aos estados de espírito dos seres humanos. Autores do período, ou seja, do século 17, evocavam assim um conceito que já vinha de Platão e Aristóteles. O primeiro falava em quatro afetos: prazer, sofrimento, desejo e temor; o segundo, adicionava outros sete à lista, como inveja, amor, ódio, saudade.

Desse cardápio, as árias de Nossos Espíritos Livres escolhem em especial as dores de amor. Elas aparecem em peças de compositores como Michel Lambert, Etiènne Moulinié e Pierre Guédron. São nomes pouco conhecidos, mas que falam de afetos próximos de nós.

“Eu nunca me coloco, ao interpretar a música barroca, no tempo barroco. O que a gente faz é sempre uma ponte com o passado. Os afetos são os mesmos, inclusive a melancolia, tão presente no disco assim como na música popular brasileira, por exemplo”, explica Marília, que se formou na Suíça e é professora da Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp), pioneira no ensino da prática da música historicamente informada, aquela que nasce do conhecimento do estilo e das técnicas da época em que as obras foram escritas.

O projeto reuniu importantes músicos brasileiros dedicados à música antiga: Roger Burmester (alaúde e guitarra barroca), Silvana Scarinci (arquialaúde e teorba) e Juliano Buosi e Raquel Aranha (violinos).

Nossos Espíritos Livres evoca o formato das árias de corte, muito presentes na vida musical francesa do século 17. Nelas, o texto vai sendo cantado com acompanhamento musical que se repete “Boa parte desse repertório me acompanha há bastante tempo. Vos Mépris Chaque Jour, de Michel Lambert, eu descobri nos anos 1990, quando comecei a me interessar pela música antiga e frequentar festivais. Estive no festival de música antiga de Juiz de Fora e lá ouvi essa ária pela primeira vez, interpretada pela grande soprano Monique Zanetti. Foi quando descobri o universo das ornamentações na escrita vocal. Essa estética abriu muito meus horizontes artísticos”, ela conta.

Para Marília, é preciso sempre retornar ao princípio de tudo: a relação entre texto e música. “O que me agrada é a transparência que há nessa relação nas peças que gravamos. São as possibilidades de colorir com seus próprios afetos aquela música ”

Como fazer isso é um aprendizado constante. Mas Marília acredita ter chegado a um momento especial na relação com o repertório que interpreta. “Depois dos 40 anos, o domínio técnico, a segurança fazem com que você vá perdendo a vergonha”, ela explica, com um amplo sorriso. “E isso faz com que você se sinta mais à vontade para arriscar algumas coisas, explorar diferentes espaços da voz.”

Händel

Marília lembra do cravista Nicolau de Figueiredo (1960-2016) e de como ele passava aos artistas com quem trabalhava o amor ao texto, a necessidade de interiorizá-lo antes de interpretar uma ária.

E é a ele, que desenvolveu carreira importante tanto no Brasil quanto na Europa, onde foi professor do Conservatório de Paris, que seu próximo disco, previsto ainda para este ano, será dedicado. Depois de sua morte, Marília e outros amigos intermediaram a doação de seu acervo para a Emesp. “Um dia o responsável pelo arquivo me chamou e mostrou papéis que havia encontrado dentro de um livro. Eu fui olhar e descobri ali uma série de ornamentações, escritas para sete árias de Händel”, ela lembra.

A soprano reuniu-se, então, com músicos como Juliana Buosi, o cravista Fernando Cordella, a oboísta Natalia Chahim e o violoncelista Alberto Kanji e gravou as árias no Estúdio Monteverdi, de André Mehmari. Uma campanha de crowdfunding levantou metade do valor para a edição do disco e das ornamentações, incluindo o fac-símile dos manuscritos de Figueiredo. O restante deve sair do bolso dos artistas. “É um material de enorme importância”, diz a cantora.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.