Escravidão

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O excelente historiador Laurentino Gomes, que já nos brindou com vários e importantes livros, acaba de lançar o primeiro volume de sua trilogia Escravidão, onde faz minuciosa análise desta página tão negra (sem trocadilhos) de nossa história. Vale a pena ler o livro, pois se o assunto já foi tratado de maneira ampla, na obra de Gomes vemos uma síntese muito abrangente da instituição e de como o Novo Mundo só cresceu e se expandiu devido ao braço escravo.

A escravidão é tão antiga como a Humanidade e existiu desde os tempos primitivos até o século XX. E ainda subsiste disfarçada na exploração de trabalhadores indefesos nos grotões de nosso e de outros países. Na antiguidade, soldados vencidos, suas mulheres e familiares eram trazidos e usados pelos vencedores para trabalhos rurais e domésticos. Muitos eram reengajados no exército vencedor e combatiam por ele. Durante muitos séculos, os negros eram mino­ria entre a população escravizada, pois na Europa predominavam os brancos dos Bálcãs, do Leste Europeu e da Rússia, os eslavos, daí a palavra slavus em latim significando escravo.

A obra se inicia com o primeiro leilão de negros africanos no território português, ocorrido na cidade de Lagos, em 1444 e se estende, neste primeiro volume, até a descoberta das minas gerais no Brasil. No século XV, era rei de Portugal D. João I, fundador da dinastia de Aviz.

Casado com a princesa inglesa D. Leonor de Lencastre, mulher diferenciada para a época, que sabia falar, ler e escrever em inglês, francês e latim, além de conhecer a literatura da época, ela trouxe um pouco do refinamento inglês à rude corte por­tuguesa e convenceu o monarca de que a única maneira de manter e expandir a dinastia recém inaugurada era educando muito bem seus filhos. Dentre eles, D. Pedro, o herdeiro do trono e o Infante D. Henrique, fundador da Escola de Sagres, que colocou as caravelas portuguesas nos mares africanos e as direcionou para o incógnito Oceano Atlântico, até atingirem o Novo Mundo.

As Grandes Navegações Portuguesas foram uma consequência lógica para um país que vivia espremido entre o grande mar e a ameaçadora Espanha. Era porém uma empreitada cara e a explo­ração da mão de obra escrava foi a forma que a realeza de Portugal encontrou para financiar seu sonho.

O livro traz, em minúcias, como este comércio se expandiu e atraiu a participação da Espanha, França, Inglaterra e Dinamarca. Levas de escravos foram enviadas ao Novo Mundo, desde o Caribe, os Estados Unidos, a América Central e do Sul. As plantações de açúcar, que foram o negócio pioneiro das colônias, só puderam crescer porque havia a mão de obra escrava. Bem que os colonizadores tentaram usar os índios, que não se adaptaram às normas e exigências dos europeus.

O comércio negreiro assumiu posição de grande destaque, inclusive com a participação de brasileiros, que os assumiram. Se os primeiros escravos foram conseguidos mediante a força dos conquistadores, ao longo do tempo os próprios reis africanos os capturavam e vendiam aos europeus em troca de bebida e outras moedas alternativas.

Vê-se no livro que o Brasil absorveu, em três séculos e meio, um contingente de 5 milhões de escravos, 47% do total dos africanos que foram enviados para as Américas, bem como se descrevem as condições humilhantes em que viviam os cativos, verdadeiros ani­mais à mercê da vontade de seus donos.

A leitura é absolutamente necessária para entendermos a presen­ça dos negros em nossa história e reconhecermos o papel definitivo que tiveram na criação e expansão de nossas riquezas, das quais os cativos e libertos ainda não puderam aproveitar.

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