Foto: AFP
Por Roberta Jansen e Giovana Girardi

Sem a Guerra Fria, talvez a humanidade jamais tivesse chegado à Lua. Ou pelo menos não há 50 anos. A disputa foi o maior estímulo para que o homem conseguisse desenvolver tecnologias tão rapidamente e ir tão longe. O fim da divisão do mundo entre capitalistas e comunistas pode explicar também por que a façanha não foi superada até hoje.

“A possibilidade de ir ao espaço era um recurso que garantiria o domínio militar, político e tecnológico entre as duas grandes potências, Estados Unidos e União Soviética, uma vez que essas tecnologias permitiriam espionar e atacar outros países”, comenta Paulo Bretones, doutor em educação em astronomia e professor da Universidade Federal de São Carlos.

Os soviéticos foram os primeiros a colocar um satélite em órbita: o Sputnik, em 1957. Vale lembrar que o foguete que lança um satélite é o mesmo usado para o lançamento de um míssil, por exemplo. E cada vez que o Sputnik passava por cima do território americano, a mensagem implícita era: “Isso poderia ser uma bomba atômica sobre as suas cabeças”. Apenas um mês depois, lançaram o primeiro ser vivo ao espaço, a cadela Laika.

Finalmente, em 12 de abril de 1961, a URSS enviou o primeiro homem à órbita do planeta, Yuri Gagarin, e, meses depois, a primeira mulher, Valentina Tereshkova. A hegemonia soviética na área era indiscutível.

A resposta americana não tardaria. Pouco mais de um mês depois, o então presidente dos EUA, John F. Kennedy, anunciou que enviaria o homem à Lua antes do fim daquela década. Para isso, lançou o Projeto Apollo, que recebeu US$ 153 bilhões em valores atuais – recorde absoluto em investimento. Nada menos que meio milhão de pessoas, entre funcionários da Nasa (agência espacial americana), da indústria e de universidades estiveram mobilizados para garantir o histórico pouso.

Oito anos depois do anúncio feito por Kennedy, no dia 20 de julho de 1969, às 17h17 (horário de Brasília), o módulo lunar Eagle (águia, em português) pousava na Lua. “Houston, aqui Base da Tranquilidade”,anunciou o comandante Neil Armstrong, se dirigindo ao controle da missão, no Texas, e se referindo ao local de pouso. “A águia pousou.” Em Houston, onde todos mal respiravam em meio à tensão e à expectativa, o momento foi de alívio. “Base da Tranquilidade, (….) tinha um bando de caras aqui quase ficando azuis”, foi a resposta. “Estamos respirando de novo.”

Seis horas após o pouso, Armstrong desceu do módulo e, finalmente, pôs os pés na Lua. “É um pequeno passo para o homem. Um grande salto para a humanidade”, disse, numa frase que, garante, não tinha sido ensaiada. Dezenove minutos depois, Buzz Aldrin se juntou a ele. Os dois ficaram na superfície lunar por cerca de 2h15 e coletaram mais de 20 quilos de rochas. Em gestos inequívocos de conquista territorial, eles registraram para a eternidade a pegada de Aldrin e cravaram uma bandeira americana no satélite.

Atenção mundial

“Parecia um filme de terror e suspense que já durava quase quatro dias, todo mundo fixado no rádio e na TV, torcendo para nada dar errado”, lembra o diretor do Observatório Nacional, o astrônomo João dos Santos que, na época, tinha 25 anos. “O homem ia conquistar a Lua, colocar os pés naquele solo árido e desértico. As pessoas foram se reunindo para ver o acontecimento, como se fosse a final da Copa do Mundo, uma partida de futebol espacial. Era o planeta olhando para a Lua, esperando aquele pequeno passo com significado tão grande.”

Estima-se que pelo menos 600 milhões de pessoas tenham assistido ao pouso pela televisão em todo o mundo. “Colocar um ser humano na Lua foi um passo extraordinário para a humanidade, sobretudo quando pensamos na tecnologia disponível na época”, afirma a astrônoma Rosaly Lopes, do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa. “E do ponto de vista filosófico também foi importante. Foi um feito não só dos EUA, mas algo que uniu toda a humanidade.”

Se a motivação original era uma guerra, o resultado acabou sendo uma inesperada união. “Fiquei impressionado (depois que voltamos), que para todos os lugares onde fomos as pessoas diziam: Nós conseguimos, nós, você e eu”, contou o astronauta Michael Collins, na homenagem que o Google lançou ontem. Collins ficou sobrevoando a Lua enquanto Armstrong e Aldrin fizeram a caminhada histórica.

Do espaço para a vida cotidiana



O desenvolvimento científico necessário para levar o homem à Lua está nas bases de várias tecnologias que usamos até hoje. A miniaturização dos componentes, que possibilitou reduzir aparelhos até então enormes e mandá-los para o satélite, foi o primeiro passo para criar todos os dispositivos de bolso que temos, como os celulares.

Um dos exemplos mais populares em todo o mundo são as câmeras digitais, resultado da invenção do sensor de imagem CMOS (semicondutor de metal óxido complementar) para captar imagens do espaço. O dispositivo é pequeno, requer baixíssima potência e é altamente eficiente. Outro exemplo é o de ferramentas elétricas sem fio, como os mini-aspiradores de pó desenvolvidos pela Black and Decker após refinar uma espécie de furadeira portátil que os astronautas tinham usado para extrair amostras da Lua.

Até o famoso “travesseiro da Nasa” tem mesmo a ver com a agência, que nos anos 1960 começou a estudar formas de melhorar a segurança e o conforto em viagens aéreas comerciais. A ideia era ter um assento à prova de choques. Chegou-se à espuma “com memória”, que tem capacidade de absorver choque. Hoje é usada em colchões, travesseiros, camas de hospital e até em próteses. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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