Por Luiz Carlos Merten, especial para o Estadão

Leandro Hassum responde às perguntas do Estadão por e-mail. Está vivendo o isolamento com a família – mulher e filha – nos EUA. “Aqui, a vacinação já está avançada, nós três nos vacinamos e, hoje em dia, já se pode circular por locais abertos sem máscara, mas eu sigo usando por causa da situação no Brasil, para dar exemplo, me parece necessário.” Hassum estrela a primeira das quatro histórias que compõem O Auto da Boa Mentira.

Ariano! “Eu adorava as aulas-espetáculo do Ariano, e o elogio dele à boa mentira. Nessa era de fake news, acho que o que era motivo de riso virou material para reflexão, e importante. Estamos vivendo esse processo das mentiras que machucam, que dificultam o andamento do Brasil e do mundo. Não me lembro quem disse primeiro, mas o Ariano assumia a boa mentira e dizia que o mentiroso precisa acreditar na própria mentira para torná-la verdadeira.” O Helder, personagem que Hassum interpreta em O Auto da Boa Mentira, é um cara sem graça. Como é fazer um personagem desses?

“Acho o jogo do filme muito gostoso e, para criar o Helder, o filme incorpora imagens dos shows que faço. Gosto muito desse humor do ‘loser’, o cara que não é notado, que é deixado de lado Jerry Lewis, que era um mestre, o meu mestre, gostava de duplos e era atraído por esse tipo de personagem. Então, o Helder é esse loser, um perdedor, derrotado, que consegue dar a volta por cima assumindo um papel de celebridade, que não é.” Sobram elogios de Hassum para o diretor. “Belmonte é um cara incrível, supertalentoso e, embora o filme curto seja atípico na minha carreira, ele nos deixou à vontade. Digo nós porque a Nanda (Costa), o Rocco (Pitanga), todos trabalhamos com muita interação e liberdade, e eles são ótimos.”

No filme, o personagem que se faz passar por outro é cobrado pelo emagrecimento, como ocorreu com o Hassum na vida. Ele se sente mais confortável como esse novo Hassum? “Vivemos um tempo em que o correto é respeitar o corpo de quem quer que seja. Nunca me senti desconfortável com meu corpo, nem antes nem depois da cirurgia. Nunca encarei o corpo como problema, a reação estava no público. Teve gente que vinha me perguntar se eu não queria mais fazer humor. O ator tem de ser mutável, tem de se colocar no espaço do outro. Como gordo, muitas vezes fazia piadas que seriam para um personagem magro.”

O Auto não é da Compadecida. É um Ariano que não é regional: “Não é mesmo, e eu acho que, na realidade, o humor da Boa Mentira é universal. A mentira tem pernas curtas, a gente sempre ouve dizer. Meu sonho é que tudo isso passe e a gente se encontre para um abraço, para rir. Nas condições de hoje, permito-me ser triste, às vezes, porque a situação não está fácil. Sou otimista e a diferença com o pessimista é que ele sempre acredita que o fundo do poço é mais embaixo. Eu vejo as coisas com esperança. Acredito num mundo pós-pandemia e que o cinema vá voltar. Teremos de novo as salas cheias para o cinema brasileiro.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.