Jornal Tribuna Ribeirão

Horário de verão – ONS diz que sistema ‘não gera economia’

ALFREDO RISK

Dois anos após a extinção do horário de verão, novo estudo realizado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) apre­senta o mesmo argumento usado pelo governo Jair Bolsonaro em 2019: a mudança no relógio não traz economia de energia.

A avaliação aponta que o mecanismo poderia ajudar, mesmo que pouco, a atenuar o consumo nos horários de ponta, ou seja, quando há maior consu­mo de energia. Por isso, no diag­nóstico entregue ao Ministério de Minas e Energia (MME) nesta semana, não faz reco­mendação alguma, pois o me­canismo teria um efeito “neu­tro”, de acordo com o ONS.

A avaliação foi feita a pedido da pasta diante da pressão cres­cente de alguns setores da eco­nomia e da grave escassez nos reservatórios das usinas hidrelé­tricas. O tema voltou à pauta após os segmentos do turismo, alimentação e comércio pedi­rem ao presidente Jair Bolsona­ro a retomada do mecanismo.

O argumento é de que o sistema de adiantar uma hora no relógio pode contribuir para a recuperação financeira dessas atividades. Especialistas no setor elétrico afirmam que, mesmo que seja uma pequena economia de energia, seria re­levante frente ao atual cenário que o setor elétrico passa.

O estudo do ONS foi entregue ao Ministério de Minas e Energia, que agora irá analisar os resulta­dos. O presidente do ONS, Luiz Carlos Ciocchi, diz que o estudo traz uma análise do mecanismo e que não foi feita recomenda­ção pela adoção ou não.

“Em poucas palavras: do ponto de vista energético é neu­tro. Do ponto de vista de ponta ajuda com o deslocamento da mesma, mas não atenua tanto assim. Sendo assim, para o setor elétrico ajuda pouco, e é claro, não atrapalha”, afirma. “[O efei­to] é neutro, não dá pra reco­mendar, nem rejeitar”, emenda.

De acordo com ele, a solicita­ção do Ministério era no sentido de atualizar um estudo feito há dois anos, que foi usado como base para a decisão de Bolsona­ro de acabar com o horário de verão. À época, o diagnóstico foi que não havia mais economia de energia tão relevante.

Isso porque como o calor é mais intenso no fim da manhã e início da tarde, os picos de con­sumo aumentam nesse horário durante o verão, o que leva as pessoas a usarem mais o ar con­dicionado. Ciocchi avalia que o novo diagnóstico confirma o es­tudo de dois anos atrás.

A redução da economia do horário de verão começou a ser percebida e questionada em 2017, quando foi registrada uma queda de consumo da ordem de 2.185 megawatts, equivalente a cerca de R$ 145 milhões. Em 2013, a economia havia sido de R$ 405 milhões, caindo para R$ 159,5 milhões em 2016, uma queda de 60%.

tivesse sido adotado no ve­rão passado, o mecanismo te­ria economizado 2.500 a 3.800 gigawatts-hora nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, segun­do estimativa do Instituto Brasi­leiro de Defesa do Consumidor (Idec) divulgada pelo Instituto Clima e Sociedade.

Em setembro, o valor da taxa adicional cobrada nas contas de luz passou de R$ 9,49 a cada 100 quilowatts-hora (kWh) consumidos para R$ 14,20 e vai vigorar entre 1º de setembro de 2021 e 30 de abril de 2022. A bandeira “escassez hídrica” pro­vocará aumento de 6,78% na ta­rifa média. A última edição do horário de verão (2018/2019) terminou à zero hora de 17 de fevereiro de 2019. Começou em 4 de novembro de 2018 e teve duração de 105 dias, 21 a menos do que na anterior.

A CPFL Paulista, concessioná­ria que atende 322.817 consumi­dores em Ribeirão Preto e outros 4,4 milhões de em 233 municípios de São Paulo, previa à época eco­nomia de 48.561 megawatts-hora em sua área de concessão. Este vo­lume seria suficiente para abaste­cer Ribeirão Preto – cidade com que em 2019 tinha 694.534 habi­tantes, segundo o Instituto Bra­sileiro de Geografia e Estatística (hoje são 720.116).

Horário de verão
No Brasil, o horário de ve­rão foi instituído pela primei­ra vez no verão de 1931/1932, pelo então presidente Getúlio Vargas. Sua versão de estreia durou quase seis meses, vigo­rando de 3 de outubro de 1931 a 31 de março de 1932.

No verão seguinte, a medi­da foi novamente adotada, mas, depois, começou a ser em perí­odos não consecutivos. Primei­ro, entre 1949 e 1953, depois, de 1963 a 1968, voltando em 1985 até 2019. O período de vigência do horário de verão era variável, mas, em média, dura 120 dias. Em 2008, o horário de verão passou a ter caráter permanente.

No mundo, o horário dife­renciado é adotado em 70 países – atingindo cerca de um quarto da população mundial. O pro­grama vigora em países como Canadá, Austrália, Groelândia, México, Nova Zelândia, Chile, Paraguai e Uruguai. Rússia, Chi­na e Japão, por exemplo, não im­plementam esta medida.

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