FELIPE TRUEBA/AGÊNCIA LUSA

Os brasileiros aprenderam que fenômenos naturais como terremotos e vulcões não são motivo de preocupação. Mas esta semana trouxe uma notí­cia diferente. A atividade de um vulcão próximo à África teria capacidade de provocar efeitos na costa brasileira. O vulcão Cumbre Vieja, em La Palma – ilha que compõe o conjunto das Ilhas Canárias espanholas – têm o potencial de provocar um tsu­nami na costa brasileira.

O vulcão vinha aumentando sua atividade sísmica ao longo dos últimos dias e entrou em erupção neste domingo (19). Fontes de lava e nuvens de fu­maça foram registradas no local. As Ilhas Canárias ficam locali­zadas a noroeste da África, pró­ximas à costa do Marrocos e do Saara Ocidental.

Chances remotas – Para as atividades vulcânicas do Cum­bre Vieja causarem impacto na costa brasileira seria necessá­rio um grande colapso do vul­cão. Se isso ocorresse, atingiria toda a costa brasileira, de nor­te a sul, bem como de outros países banhados pelo Oceano Atlântico. Essa possibilidade, no entanto, é considerada re­mota por especialistas.

Um estudo do pesquisador norte-americano George Para­ras-Carayannis, presidente da Tsunami Society International, afirmou que esse tipo de colapso é “extremamente raro e nunca ocorreu na história registrada”. Além disso, ele afirma que estu­dos recentes prevendo a geração de tsunamis a partir da erupção do Cumbre Vieja foram basea­dos em suposições incorretas.

Pararas-Carayannis acres­centa em seu estudo que uma “atenção e publicidade inapro­priadas da mídia a tais resulta­dos probabilísticos têm criado uma ansiedade desnecessária de que megatsunamis poderiam ser iminentes e devastar popu­lações costeiras em localidades distantes da origem – nos ocea­nos Atlântico e Pacífico”.

Já o geólogo Mauro Gustavo Reese Filho, da Universidade Federal do Paraná, afirma em estudo que, ainda que as chan­ces sejam remotas, a população costeira do Brasil deveria ser conscientizada. “Estudos mais recentes dizem que as chan­ces de ocorrência são remotas e longínquas, no entanto, o estabelecimento de sistemas de alarme que possibilitam a evacuação de áreas é justifi­cável quando se trata de vidas humanas”, diz Reese em seu trabalho, também citado pela Metsul Meteorologia. O brasi­leiro aponta a falta de cuidados preventivos na costa brasileira.

Ele parte do princípio de que uma mera possibilidade de de­sastre já indica a necessidade de ações preliminares. “A possibili­dade de ocorrência deste evento por si só deveria ser razão para a prevenção de todos os tipos de danos na costa brasileira, po­rém até o momento nada foi feito. A falta de informação é a principal causadora deste pro­blema, pois inclusive no meio geológico muitas pessoas não sabem sobre tal fato”.

Erupção
A primeira erupção vul­cânica das Ilhas Canárias em 50 anos obrigou a retirada de cerca de cinco mil pessoas, in­cluindo aproximadamente 500 turistas, e destruiu cerca de 100 casas, disseram autoridades nesta segunda-feira (20).

O vulcão entrou em erup­ção no domingo (19), lançan­do lava a centenas de metros de altura, atingindo casas e flores­tas e enviando rocha derretida rumo ao Oceano Atlântico, ao longo de uma área escassa­mente povoada de La Palma, ilha do extremo noroeste do arquipélago das Canárias.

Antes da erupção, os cien­tistas registraram uma série de terremotos de magnitude 3,8 no parque nacional, de acor­do com o Instituto Geográfi­co Nacional Espanhol (ING). Nenhuma morte foi registra­da, mas o vulcão ainda estava ativo nesta segunda-feira. Um repórter da Reuters viu fuma­ça espessa saindo do vulcão e casas em chamas. Autoridades disseram ter esperança de não ter que retirar mais ninguém.

“A lava está seguindo para o litoral e o dano será material. De acordo com especialistas, há cer­ca de 17 milhões a 20 milhões de metros cúbicos de lava”, dis­se o presidente regional, Ángel Victor Torres, à Rádio Cadena Ser. O fluxo de lava já destruiu cerca de 100 casas, disse Ma­riano Hernández, presiden­te do conselho de La Palma.

Cerca de 20 moradias foram engolidas no vilarejo de El Paso, assim como trechos de ruas, dis­se o prefeito Sergio Rodríguez à emissora estatal TVE. A lava es­tava se espalhando por vilarejos vizinhos e colocando centenas em risco, acrescentou. O vulca­nólogo Nemesio Pérez disse que mortes são improváveis, contan­to que ninguém se comporte ir­responsavelmente.