Inflação de pobres supera a dos ricos

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PILAR OLIVARES/REUTERS

A inflação de alimentos seguiu pesando mais sobre os mais pobres em dezembro, segundo o Indicador Ipea de Inflação por Faixa de Renda, divulgado nesta sexta-feira, 15 de janeiro, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). No último mês de 2020, enquanto a taxa das famílias de menor renda apontou alta de 1,58%, a faixa de renda mais alta registrou avanço de 1,05%.

No fechamento do balan­ço de 2020, a diferença ficou ainda maior: a taxa dos mais pobres apontou alta de 6,22%, ante avanço de 2,74% na taxa dos mais ricos. O Índice Na­cional de Preços ao Consumi­dor Amplo (IPCA), indicador oficial de preços calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e usado nas metas de inflação perseguidas pelo Banco Cen­tral (BC), fechou o ano passa­do com alta de 4,52%.

Se, no ano, a dinâmica dos preços dos alimentos no domi­cílio deu o tom da inflação, em dezembro, o encarecimento da conta de luz também dominou os orçamentos domésticos. “No caso das famílias de renda mais baixa, observa-se que, em dezembro, as maiores contri­buições à inflação vieram dos grupos habitação e alimentos e bebidas, repercutindo a alta de 9,3% nas tarifas de energia e os aumentos no preço do gás de botijão (2,0%), arroz (3,8%), fei­jão (3,3%), batata (7,3%) e car­nes (5,6%)”, diz o relatório.

Em dezembro, o descom­passo no ritmo da inflação percebida pelos mais pobres da verificada pelos mais ricos foi menor justamente porque houve pressão de mais itens do que os alimentos. Para os mais ricos, isoladamente em dezem­bro, “os reajustes nos preços das passagens aéreas (28,1%), dos transportes por aplicativo (13,2%) e da gasolina (1,5%) fizeram do grupo transpor­te o maior foco inflacionário”, aponta o relatório do Ipea.

No ano como um todo, o descompasso se explica pela forte aceleração de preços de alimentos e energia, que pesam para os mais pobres, e por uma alta menos intensa nos preços dos serviços e dos combustí­veis, que afetam mais os gastos das famílias mais ricas. Segun­do os pesquisadores do Ipea, para as famílias mais pobres os gastos com alimentos, energia e gás comprometem 37% dos seus orçamentos.

E esses itens estão entre os que mais encareceram em 2020. Ficaram mais caros itens como arroz (76%), feijão (45%), carnes (18%), leite (27%) e óleo de soja (104%), além das tarifas de energia (9,2%) e do gás de botijão (9,1%). Já os itens que ocupam mais espaço na cesta de consumo dos mais ricos, ti­veram alta mais modesta.

O destaque foram os gas­tos com serviços livres, “com grande peso no orçamento das famílias mais abastadas, como mensalidades escolares (1,1%) e serviços médicos e hospitalares (1,8%), e as de­flações em itens consumidos majoritariamente pela popu­lação com maior poder aqui­sitivo, como passagens aéreas (-17%), seguro de automóvel (-8%) e gasolina (-0,2%)”.