Franz Kafka, escritor de poucos livros de poucas páginas, con­verteu-se numa das figuras literárias mais influentes dos nossos dias. Seus livros têm menos de duzentas páginas. Seu acervo, como se vê, é curtíssimo. No entanto a sua influência se eternizou.

O jornal Folha de S. Paulo de 15/04/2021 dedicou uma página inteira para noticiar a publicação do seu diário, ou seja, o diário desse autor que nasceu em Praga em 1883 e faleceu em 1924, ainda sob o Império Austro-Húngaro. Todos os seus livros foram escritos em alemão.

Os seus livros mais editados são “A Metamorfose”, “O Processo” e “O Castelo”. A edição do “A Metamorfose”, que tenho, tem 141 páginas; a de “O Processo” tem 191 páginas. Kafka escreveu pouco, mas deixou para a história de notáveis obras. É importantíssimo lembrar que pediu para seu amigo Max Brod queimar todos os seus manuscritos após sua morte. Peço licença para realizar um pequeno comentário sobre “A Metamorfose”. Se for possível, em breve falarei sobre “O Processo”.

Numa manhã, Gregor Samsa, um jovem caixeiro-viajante, ao acordar descobriu que havia se transformado num verme, talvez num inseto. Tem uma enorme dificuldade para levantar da cama, vendo suas numerosas e pequenas pernas agitando inutilmente.

Sua família, muito espantada, passa a viver um tipo novo de vida. Seu pai contrariado. Sua irmã Grete fatigada com tanto de serviço a prestar ao novo Gregor. Sua mãe completamente desconsolada. Gregor passa os dias, quase sempre, escondido debaixo do sofá de seu quarto. Pode um homem acordar numa manhã transformado num inseto, criando uma nova forma de conviver com sua família? Com a faxineira de sua casa? Kafka multiplica as perguntas e as respostas que encontra para tais questões.

O livro transporta o leitor para nossos dias. Não nos transformamos em insetos ou em vermes à procura de novas formas de viver e conviver.

No entanto, um tal de vírus desconhecido, hoje identificado como “covid” acordou na nossa casa, impondo, pela sua natureza, uma pro­funda e dolorosa alteração na nossa convivência. Chegou ele acom­panhado pela sua mãe, a “Morte”, que nos obriga a procurá-lo não debaixo do sofá, mas por todo canto ou recanto de nossa convivência. Deixamos de nos cumprimentar.

Tem jeito de expulsar essa companhia? Ou, na falta de meios ou de caminhos, somos obrigados a nos submeter ao poder imposto por aqueles que invadiram nossas casas?

O covid e “A Morte” passaram a ditar as regras de nossa sobrevi­vência. Ainda que não queiramos fugir deles acabamos, pelo menos, a ocultar a nossa identidade, usando máscaras no rosto e na alma. Até mesmo porque podemos não saber se, pela manhã, não estaremos condenados a nos submeter, não as regras da nossa família, mas ao desejo desses odiados companheiros.

Uma ponta de esperança alimenta nossos passos, quando então passamos a crer que chegará um tempo em que os hospedeiros fujam para longe de nossa casa, de nossa convivência, sei lá para onde. Talvez para Marte?

A família de Gregor Samsa, segundo Kafka, aprendeu a conviver com o inseto. Não eternamente. Gregor Samsa sempre foi e será amado pela sua família, espacialmente pela sua Irmã Grete.

Todavia, a família e até mesmo Grete não foram feitas para conviver com um irmão transformado num inseto horrível. Há alguma solução? Há alguma porta para ser fechada eternamente?

E as famílias de hoje, estarão conformadas a conviver com a pre­sença do covid e com a sua mãe “A Morte”? Há alguma solução? Qual é a porta a ser trancada? A deles? Ou a nossa?