Larga Brasa

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Churrasco solidário
Na época em que o rádio era o meio de comunicação mais in­fluente no país, a população recorria aos programas de maior aceitação com frequência e principalmente quando de emer­gências e necessidade de ações solidarias. Não havia internet e mesmo com o aparecimento da televisão o rádio AM era o que mais falava ao coração do povo. Diariamente sentíamos o pulsar da vontade popular e de suas carências. No setor pú­blico sempre foi trincheira democrática exigir dos poderosos a ação para reparar danos em vias públicas, atendimento social, além de despertar aos responsáveis o dever do atendimento que os bairros mais distantes e desprotegidos solicitavam. Era o despertador da comunidade, que logo às primeiras horas da madrugada estava ligada aos programas sertanejos com as músicas que os ouvintes pediam.

‘Vakinha solidaria’
Não havia a tal de “vakinha solidaria”. As ações eram diretas e mobilizavam os corações menos empedernidos em atividades para diminuir as diferenças sociais, constatando nos locais em que os problemas existiam. Certa feita, uma senhora pediu para entrar “no ar” para fazer um apelo mais enfático. Come­çou descrevendo sua casa e a situação de quatro crianças que ela assumiu de uma filha e que tinham problemas de desnutri­ção, anemia etc. O médico, segundo ela, havia determinado a necessidade de dois meninos e duas meninas comerem muita carne de vaca, com frutas e legumes. Ela chorou ao relatar sua situação. Não queria que o pessoal fosse a sua casa, pois “iria se sentir envergonhada deles observarem suas modes­tas condições”. Ela própria se dispunha a ir até as residências cujos moradores se sensibilizassem para arrecadar alimentos e principalmente carne. Dezenas de pessoas se propuseram a auxiliar as crianças de uma rua distante de Vila Virginia. Con­seguiu carne dos cortes mais nobres e de outras categorias. Ela chegava com um mototaxi, cujo motociclista dizia estar auxiliando voluntariamente na ação. Foram vários dias de ar­recadação. Todos chocados com a situação das crianças.

Olheiro do bem
Um cidadão, verdadeiro “São Thomé” resolveu constatar no local a situação, até para ajudar mais. Pelas dicas dadas pela mulher ele foi se situando e conseguiu chegar ao local, no sá­bado que era o dia em que ele tinha folga. Juntou roupas não utilizadas, cobertores, despesa completa etc. Quando chegou a casa, havia uma festa. Dezenas de pessoas com espetos de churrasco nas mãos, muita cerveja e batuque de um conjunto musical. Os vizinhos, que sabiam da tal “campanha” falaram para o “São Thomé” que a carne era para um churrasco da família e amigos que completavam o cardápio com as frutas recebidas em nome “das crianças”. Ele deu meia volta, passou por uma favela e doou o que havia levado para uma pessoa, cuja situação ele constatou ser de muita necessidade. Ficou revoltado com a situação e por ter sido enganado.

A volta
Passados alguns dias eis que a senhora chorosa volta ao mi­crofone para tentar aplicar o segundo golpe. Iniciou a sua cho­rosa ladainha ao jornalista e programa que havia sido feita a primeira campanha e tentou descrever novamente a situação com tintas as mais dramáticas. O repórter ligou para o cida­dão que bancou o “São Thomé” e o colocou ao mesmo tempo no ar com a vigarista. Ele “chutou o balde” e acusou a de ila­quear a boa-fé pública, enganando a todos que colaboraram. Ela tentava se explicar e ele afirmava que havia visto com os olhos “que a terra há de comer” que ocorreu uma festa com as doações. A mulher não teve como se explicar e desligou o telefone, eis que havia sido denunciada por alguém que foi ver para crer. Nunca mais ela solicitou a ajuda em nome das crian­ças que eram sadias e não estavam doentes. Era o churrasco solidário para os festeiros amigos.

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