Perguntar não ofende
Eram tempos difíceis. Turbulência pós-movimento de 31 de março. Uma alta patente ajudou a esclarecer algumas dúvidas sobre condutas de políticos locais que estavam sendo perse­guidos por grupos de direita, acusados de serem esquerdistas em apoio ao ex-presidente João Goulart, que deixou Brasília e foi para o Uruguai, onde possuía uma propriedade agríco­la. Muitos que partilharam de seu governo se integraram aos novos governantes, deixando de lado amizades e mesmo rela­ções mais próximas da família de Jango, como era conhecido o acusado de tentar implantar um Regime Comunista no país.

Título de Cidadania
Os que foram gratos ao general comandante do Exército em São Paulo resolveram homenageá-lo com o Título de Cidadão de Ribeirão Preto. Convidaram-no em época especial para a homenagem que foi prestigiada por amigos e colegas da refe­rida alta patente. No dia da homenagem, a Câmara Municipal foi enfeitada para a ocasião e com ansiedade aguardada por aqueles que estiveram na mira de algumas represálias recha­çadas pelo visitante. O Legislativo funcionava na esquina das ruas Barão do Amazonas e Duque de Caxias. Convites feitos às autoridades civis, militares e eclesiásticas como de costu­me tiveram a confirmação da grande maioria dos chamados para o evento.

Coletiva
A imprensa foi convidada a participar de uma coletiva no Palácio Rio Branco, na sala da assessoria, junto ao gabinete do prefeito. Sala lotada, muitos querendo aparecer junto ao importante visitante com potencial para mandar prender e determinar soltura dos quartéis, etc. Muito solicito o general se colocou à disposição para ‘qualquer tipo de pergunta’. Um jovem repórter recém-aprovado no vestibular da Faculdade de Direito, ainda com o chapéu do trote do Diretório Laudo de Camargo abre a série de perguntas e foi fundo na história do movimento. Muitos comentários surgiram sobre a cooptação daquela importante peça de xadrez no tabuleiro dos novos tempos. O jovem repórter, sem se assombrar com tantas per­sonalidades do tipo “baba ovo” soltou a pergunta que deixou muita gente perplexa: “General, como o senhor, compadre de João Goulart, padrinho de seus filhos João e Denise foi traí­-lo”? Agito geral. Não se sabe como ele não foi enviado para a masmorra. Mas o general, com calma tentou dar uma respos­ta convincente, que não convenceu aos que estavam ali para trabalhar. Enrolou e não definiu o motivo de sua mudança de opinião. Mas ficou por isso mesmo, na época. Só turbulência. À noite, na Câmara, o episódio não teve repercussão e passou em “brancas nuvens”.

Órgãos de análise de comportamentos
Havia mais que um órgão oficial de análise de comportamen­tos à época e anos depois quando aquele repórter foi tentar viajar para o exterior precisou de um passaporte emitido pelo Dops. Houve dificuldade para o fornecimento, pois que um dos órgãos de análise de comportamentos havia deixado re­gistrado o pedido de informações sobre aquele profissional da imprensa. Houve necessidade de que um delegado, de alta colocação na Secretaria da Segurança Publica do Estado, lhe desse o abono para que ele pudesse viajar. E foi.