Palestra do historiador Leandro Karnal
Por Guilherme Sobota

Leandro Karnal já se firmou como um dos colunistas mais queridos da imprensa brasileira: suas crônicas, às quartas e domingos no jornal O Estado de S. Paulo, tratam de temas tão variados como fake news, educação e religião, e tentam, como o autor explica, tirar o leitor da zona de conforto.

Nesta quarta-feira, 10, Karnal lança o livro O Coração das Coisas (Editora Contexto), sua terceira reunião de textos publicados no jornal nos últimos 3 anos. O evento, com a presença do autor, será na Casa Bossa, no Shopping Cidade Jardim (Av. Magalhães de Castro, 12.000, Morumbi), em São Paulo, e tem entrada gratuita. Sobre os assuntos do livro, Karnal respondeu às seguintes questões.

O livro começa falando sobre justiça e vingança. Pensando no ensinamento de Tácito (“a gratidão é um peso, a vingança, um prazer”), que fatores de vingança você identifica no atual cenário político-social nacional?

O questionamento mais interessante seria supor o motivo de alguém imaginar a discordância como sinal de inimizade mortal. Talvez seja nosso famoso tom “cordial” (passional) que mestre Sergio Buarque de Holanda identificou. Existe muita infantilidade nos debates, com insultos, adjetivos, apelidos jocosos, como se fôssemos crianças birrentas em um parquinho. Pior: a diversão atual é “lacrar” ou “mitar” na resposta, as gírias do momento para mostrar a insegurança narcísica do debate Por que alguém que pensa diferente parece demandar a “vendetta”, a vingança privada, isso é um mistério para mim. Talvez brigar e vingar ofensas reais ou pretensas seja o espaço que sobre ao fracassado. Berro para que minha voz oculte minha impotência real e minha insignificância pessoal. 

As fake news tiveram uma presença constante nas últimas eleições, justamente nesse sentido de “projeto” que você menciona nos seus textos. Outro tema seu é a liberdade de expressão. Você acha que esses dois elementos têm alguma relação?

Vai continuar a onda de “fake news”. Continuamos debatendo opiniões subjetivas e não dados técnicos. Há um claro avanço da irracionalidade e do orgulho de evitar vias que impliquem reflexão ou estratégia. A novidade é o orgulho que a irracionalidade está provocando. Como os temas são complexos, o ideal passou a ser o pistoleiro do Velho Oeste que, sem argumentos, confia na eficácia do seu revólver. A liberdade de expressão é algo extraordinário, porém, inevitavelmente, ela está franqueada também ao bandido e possui o dado impossível de ser superado em qualquer sociedade: se eu posso dizer o que penso, tenho de aturar ouvir as mais extraordinárias bobagens da mesma forma. Ainda prefiro a balbúrdia de redes socais do que o silêncio tumular das ditaduras. Como sonho de consumo, utópico, claro, pensaria que a condição para alguém ter uma conta em redes sociais seria responder a quatro ou cinco perguntas básicas de interpretação de texto. Se conseguir acertar a metade, teria direito a suas redes, independente da sua opinião. Em resumo: que bom que você seja conservador, de esquerda, de centro, católico ou evangélico; desde que você leia enunciados simples. Claro, é uma utopia restritiva e irrealizável. É uma pirraça nostálgica. 

Em seis meses do novo governo federal, você sente pegadas de autoritarismo (como era temido por muitos dos opositores do novo presidente)?

Os poderes constituídos no Brasil, eleitos ou não, sempre trazem as marcas do autoritarismo. Os indivíduos consideram-se “sagrados” ao exercerem uma função pública. Os pronomes de tratamento, a liturgia do cargo, as benesses, as luzes dos holofotes são, quase sempre, facilitadoras de um isolamento de modelo “Palácio de Versalhes”. O ocupante passageiro do cargo investe-se de um sonho vitalício e merecido e cria o imaginário da nação a seu serviço. O fenômeno é ainda mais visível quando aquele que ocupa o posto de destaque apresenta biografia pregressa medíocre e, enfim, pode levar todas as suas mágoas e humilhações para a cadeira do poder. Não é um fenômeno novo no Brasil, apenas está mais visível. 

Em uma das crônicas, é mencionada uma criação de consciência sobre preconceitos. Essa consciência coletiva não recua, mesmo com ataques abertos, por exemplo?

O preconceito declarado ainda possui nichos de legitimação. O orgulho antigo de manifestar opiniões pejorativas sobre um grupo não pode mais ser declarado porque, entre outras coisas, alguns preconceitos conduzem à cadeia. Declarar-se racista ou misógino ainda encontra eco, porém, atrapalha a carreira e até impede um novo emprego. Parece que hoje existe a dor de não poder mais ser um “macho cafajeste” ou expressar a tradicional opinião imbecil sobre o Nordeste. Existe uma “demanda contida”, uma “nostalgia” pelos tempos em que ser idiota era até um distintivo de graça pessoal. Trata-se de fenômeno mundial. Um diretor do FMI, Dominique Strauss-Kahn, foi acusado de assédio sexual e perdeu o cargo. Em parte, ele manifestava esse espanto de quem fazia algo há muito tempo e, de repente, enfrenta a Polícia por atitudes que, anos antes, provocavam gargalhadas na mesa do bar. Vivemos uma longa transição e há muitas dores de parto pelo novo mundo.

Pensando sobre futuro, nas suas crônicas sobre educação, há algumas ideias sobre o futuro das escolas. Qual é o papel da escola na profunda incompreensão mútua que aparentemente existe no contexto político atual?

A escola enfrenta um desafio enorme. Modelos de avaliação voltados à memória estão condenados. O conhecimento fica obsoleto com velocidade inédita. Uma aula de 50 minutos em si e a sequência de muitas aulas de mesma duração são quase insuportáveis para a atenção média de um aluno da era do smartphone. Nós professores não temos uma formação específica para lidar com tudo isto e temos de inventar algo novo. Há muitas boas experiência educacionais. Existe um desafio novo e ainda a escola é o lugar de excelência para introduzir jovens à complexidade do mundo com diversidade, à curiosidade diante do saber e a fazer perguntas boas, mais do que possuir respostas prontas. Um bom professor, hoje, deveria ser um profissional altamente recompensado por ser alguém muito especial que encontrou respostas para indagações extremamente complexas. 

O CORAÇÃO DAS COISAS

Autor: Leandro Karnal

Editora: Contexto (272 págs., R$ 45)

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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