‘Lockdown’ em Ribeirão? Uma tragédia sabida e anunciada

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Nossa tragédia não é somente nacional. Ela é estadual e municipal também. Nunca os responsáveis maiores pela política e pela administração pública do país foram tão negligentes e irresponsáveis quanto neste mo­mento de pandemia, com milhares de vidas sendo ceifadas diariamente. Em primeiro lugar, isso é o resultado do negacionismo que tem como funda­mentos principais a ignorância e a ideologia de extrema-direita. A “gripezi­nha”, o “resfriadinho”, escancara as garras da morte, enlutando as famílias e provocando consequências imprevisíveis na economia, principalmente entre os mais pobres.

Não quero isentar aqui boa parte da população que também parece não compreender a gravidade do momento. Quando o comércio reabriu em Ribeirão, dias atrás, vimos a imagem do calçadão apinhado de gente parecendo a semana de Natal. Me custa compreender as pessoas transitando por aí sem usar máscara… Será que é pouco valor dado à vida? À sua própria vida? Nem falo da vida alheia… É o ser brasileiro? Trata-se de uma questão a ser investigada no campo da antropologia e da cultura também. Sabemos disso. Quando o isolamento começou a ser afrouxado na Europa, as pessoas se recusavam a sair de casa…

O fecha e abre, a indecisão política, a pequena importância dada à ciência e aos especialistas, a política acima da saúde, tudo isso levou boa parte da população a não dar muito crédito aos alertas de todos os lados. É a ignorância em acreditar em fake news aliada ao negacionismo em outras matérias. Lembro de um programa noticioso de uma das nossas emissoras locais, quando uma enquete perguntava aos ouvintes se acreditavam nas estatísticas da covid-19. Questão mal colocada. O resultado era 85% dizerem que não acreditavam, dando a entender que os números eram, na realidade, muito menores. Veja que absurdo. Desconsideravam a fragrante subnotifica­ção dos casos.

Diante do quadro assombroso a que chegou a pandemia em Ribeirão, o nosso Conselho Municipal de Saúde indicou às autoridades, na terça passa­da, a necessidade imediata de se decretar o “lockdown”. Quer dizer, então, que Ribeirão Preto, polo de saúde do Estado, depois de mais de cem dias de quarentena, errou em todos os sentidos? Não fez o mínimo dever de casa para se preparar para o pior? A conclusão é exatamente essa… Outras cidades do país e do Estado têm sido mais competentes para enfrentar este inimigo invisível e de que se tem tão pouca informação. Mas gestores e corporações econômicas não se dão conta disso.

Vi na internet um rosário de falhas cometidas por aqui diante da pan­demia. Com todos os créditos a Paulo Sartre que as colocou em forma de interrogações, passo a elencar algumas delas aqui. A fase vermelha foi mal executada? O prefeito cedeu às pressões da Acirp e de outras entidades em momento inoportuno? A fiscalização foi mal feita ou nem houve de fato? Tem como fiscalizar agora um “lockdown”? Houve contratação de equipes médicas intensivistas? Houve subdimensionamento de leitos de CTI? Foi pensado em um hospital de campanha? Houve investimento municipal na compra de respiradores? Houve investimento municipal em novos leitos? Houve transparência total em dados publicados pelo município? Houve um diálogo aberto e eficaz com especialistas, com a Câmara, o MP, a Justiça, a OAB e a imprensa? O prefeito utilizou a verba destinada à publicidade no combate da pandemia? O que se observa é uma inaptidão completa por parte da administração pública municipal.

Me restringi até aqui somente aos aspectos sanitários da crise. Mas pode­ríamos falar também de outras medidas necessárias, principalmente no cam­po da economia, e que poderiam ter sido tomadas pelos governos estadual e municipal. Não se viu nenhuma medida de socorro aos empresários que garantem a maior parte dos empregos, pequenos e médios comerciantes. No campo fiscal, por exemplo. Não se viu nenhuma medida da prefeitura para atenuar a crise entre as famílias e os trabalhadores. Com a prorrogação ou anistia de taxas e impostos, por exemplo. O que se viu foi a prefeitura fazer caridade com chapéu alheio, distribuindo cestas básicas que não eram suas.

Mas vamos terminar com uma notícia boa. Como coroamento de todos esses “acertos”, o prefeito municipal recebeu a comenda de “gestor municipal do ano”!

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